O oceano no fim do caminho

O Oceano no fim do caminho
Neil Gaiman
Tradução: Rita Graña
Páginas: 184
Coleção: Via Láctea Nº 113
P.V.P.: 13,90€
ISBN: 978-972-23-5199-7

Há algo que tenho a certeza quando termino de ler as narrativas de Gaiman: quero que os meus filhos cresçam a ler os livros dele. Gaiman está para os livros como a Pixar está para os filmes, consegue ao mesmo tempo encantar crianças e adultos. O oceano no fim do caminho representa os dois lados de um ser humano: o infantil, onde a imaginação é uma arma poderosa para sobreviver à infância e o adulto, que sente uma nostalgia dos seus tempos de infância e quer voltar a sentir a inocência.

O oceano no fim do caminho consegue capturar o pior do nosso mundo imaginário infantil: os monstros, com o pior do mundo adulto: a angústia, o sacrifício por aquele que mais amamos e a perda, dando no fim uma sensação de falsa esperança. Recuperamos temas já característicos da obra de Gaiman como a identidade e a morte.

No Oceano, a personagem principal não possui nome. Essa ausência de uma marca de identidade forte, já tinha aparecido na “Estranha vida de Nobody Owens”, onde, como o nome indica, o rapaz era um “nobody”. No entanto somado a esse “ninguém” havia um apelido. No Oceano não. De certa forma, esta ausência de identidade que marca o protagonista contribui para uma sensação de que ele é mais do que uma personagem, é um símbolo, que encerra em si todo o espírito do que fomos uma vez na nossa infância. E tal como na infância fantasia e realidade estão diluídas, Gaiman aproveita essa distorção para criar uma história simples mas ao mesmo tempo complexa. Aliado a essa complexidade, surge Lettie, que é uma sidekick poderosa, uma espécie de amiga imaginária para os mais pessimistas (ou realistas) e talvez para os mais optimistas a amiga que sempre quisemos ter. Lettie vem de uma família poderosa e antiga que protege o nosso mundo dos monstros. A família Hempstock aufere uma aura de sabedoria e calma, assegurando que o protagonista não está a enlouquecer quando vê os monstros, por exemplo quando Urusula (uma suposta pulga) aparece e tenta seduzir o pai. Ursula detesta o protagonista porque ele consegue ver quem ela é, mas na verdade ela não é um monstro, mas sim provavelmente uma mulher que apenas está a ter um affair com o pai e, por isso, torna-se num monstro na cabeça da personagem.

Mais do que Lettie e o rapaz, o Oceano é ele próprio uma personagem presente. Situado no fim de um caminho, o Oceano representa a ponte entre os dois mundos (dos vivos e dos monstros), mas simultaneamente é uma espécie de limbo. O “lane” (traduzido para português e brasileiro como “caminho”) representa a “lane” da vida. Não é por acaso que o homem se suicida no fim do caminho e sempre que a protagonista perde alguém importante, regressa a casa das Hempstock e ao fim desse caminho. Neste lugar, o tempo é uma mistura de memórias mal misturadas, onde o protagonista regressa para reviver os bons momentos da sua infância (mesmo que seja imaginária) e fugir da sua vida aborrecida e banal.

O fim do caminho não tem qualquer utilidade para os adultos a não ser alimentar-se de memórias e o oceano de vidas. Lettie marca o protagonista numa espécie de ritual de passagem de criança inocente e feliz a alguém que começa a conviver com a perda. Mesmo sabendo que Lettie não está em casa, o protagonista volta sempre para poder voltar a ser feliz e inocente, tendo possivelmente, a consciência que isso nunca será possível, mas mantendo a esperança. Se toda a história que ele nos conta é verdadeira, isso nunca iremos saber.

Este livro é tanto um conto fantástico como um livro sobre a memória e o modo como ela nos afeta ao longo do tempo. A história é narrada por um adulto que, por ocasião de um funeral, regressa ao local onde vivera na infância, numa zona rural de Inglaterra, e revive o tempo em que era um rapazinho de sete anos. As imagens que guardara dentro de si transfiguram-se na recordação de algo que teria acontecido naquele cenário, misturando imagens felizes com os seus medos mais profundos, quando um mineiro sul-africano rouba o Mini do pai do narrador e se suicida no banco de trás.

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About Adeselna Davies

Occasionally works as an English and German teacher, also loves to read all kind of books and wish someone would pay her to read and write reviews forever. She is also a magazine designer and writes short-stories.

One response to “O oceano no fim do caminho

  1. Ema

    Adorei este livro e concordo plenamente com tudo o que dizes sobre ele! Fantástico 🙂

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