Tidy Friday 25!

Esta semana voltamos a um tema bastante polémico e quero deixar aqui bem claro que não quero culpar os professores… Ok culpa alguns, não vou mentir!
A verdade é que muitas vezes noto que os bloggers têm bastantes dificuldades em interpretar livros. Nada contra esta dificuldade, mas pus-me a pensar porquê? Porque é que não conseguem ir para além do óbvio? Porque é que não conseguem juntar muitas vezes várias coisas e descobrir o que esta para alem das linhas?

Estou neste momento a dar explicações a um aluno do 8º ano com imensas dificuldades a Português e a principal dificuldade dele é: interpretação! Os testes dele são sempre fracos nesta parte, a professora não ajuda, faz perguntas que exigem um raciocínio bastante maduro e adulto e muitas vezes as próprias obras que os alunos lêm, não os puxam para entenderem. A verdade é que notei que quando eu fazia diversas perguntas para guiá-lo, ele chegava bem a resposta, no entanto em vez de colocar uma pergunta tinha de fazer cinco, cada uma guiando-o até ele encaixar tudo por ele próprio. Isto é um processo que demora bastante tempo e nunca poderia acontecer numa sala de aula. Normalmente o professor pede para um aluno ler um texto e fazer exercícios X e sinceramente se não tivermos a professora correcta, pode ser uma pasmaceira!
Cursos em português de borla não os há, mas existem cursos em inglês gratuitos fornecidos por universidades estrageiras sobre vários tópicos e (já que muitos bloggers dizem que ser blogger é muito mais do que as pessoas pensam – FYI concordo), nao fazia mal nenhum muitas vezes apostar nesses cursos nem que seja um mês. A verdade é que, ao ouvir um professor a falar e dissertar sobre vários momentos da obra e sobre os temas da mesma, facilita a nossa capacidade de raciocinar e ir além do óbvio. E agora vocês dizem: Opá, mas e quem não sabe inglês? Como uma professora minha dizia: se não sabes inglês, aguenta-te à bronca! Não é por mero acaso que só este ano tenha escrito um artigo sobre literatura BDSM, feito dois cursos sobre literatura, estou a meio de um sobre escrita e ainda vá pegar em obras de literatura medieval.
“Ah, mas o meu blogue é o meu blogue eu faço o que quero lá!” Verdade. E as editoras o que querem é isso, blogues fofinhos a dizerem: ai este livro despertou em mim tantas emoções, ai chorei tanto! Claro que sim! O que eles querem é que vocês digam tão bem e falem de emoções. Senti isso quando li o “A voz” da Bishop. Queria abanar os bloggers, como é que eles não viam a crítica feminista? Os simbolismos claramente eróticos e as mensagens de revolta? Um outro livro que me deixou chocada pela maior parte da critica blogger ter arrasado foi “A noiva despida”. Um dos melhores livros eróticos de sempre: denso, com uma temática forte, completamente diferente de muitos eróticos, mas que foi tido muitas vzes como: não terminei ou detestei… Mas e então a temática? A densidade da personagem principal? O final que passou uma mensagem forte? Isso não conta? Deve o leitor só guiar-se pelas emoções do: a personagem não me cativou? E se o leitor gostar da temática da falta de prazer das mulheres? Compreendo que seja infinitamente mais fácil dizer: adorei, porque Y e não gostei porque X. Tudo isto é válido, claro, mas e depois? E se o que ajudar o leitor não é o que nós gostamos mas sim a ideia que transmite? Porque é que temos de ser egocentricos e achara que a nossa opinião é mais importante que a interpretação do texto? Porque é mais simples? Não gostei mesmo nada do livro O rei Inverno, mas não pude dar má nota porque Cornwell tratou de temas bons tipicamente medievais e o aproveitamento de detalhes do quotidiano foi extraordinário. Claro que se eu fosse a escrever uma opinião dizia: desculpem, não gostei o início é lento e não me cativou. Mas e se eu escrever que o livro trata de temas característicos período da Idade Média como o papel da religião fulcral, o amor (muita da literatura medieval eram cantigas de amor) e knigthood. Ao explorar estes temas, se calhar as pessoas vão achar: eu gosto destes temas, vou ler! Se lessem: não goste deste livro, provavelmente pensariam: ok acho que também não vou ler.
Mas como se dá o salto gigante do opinar para o criticar?
Supostamente ao ter o 12º ano de Português já se devia de saber interpretar bem. Problema: muitas vezes os alunos eram castigados com más notas por pensarem por si próprios e responderem certas coisas que os professores não concordavam. Ainda hoje isto acontece e corta bastante as asas dos alunos que devem ter raciocínio crítico e ir sempre mais longe.
Infelizmente o tipo de livros que os nossos alunos lêm, não são os melhores. Eles passam de ler Sophia de Mello Breyner no 7º ano para Saramago no 8º! A literatura portuguesa trata muito mal os livros para adolescentes que são, na sua maioria, clichés e abriga-se dos best-sellers internacionais. Os próprios autores de YA muitas vezes tendem a isso mesmo: imitar histórias de best-sellers. E o aluno vê-se forçado a ler muitos livros estrangeiros porque as editoras trata mal o que é nacional e os autores de YA não querem ser muito inventivos e arriscar porque senão não são publicados… Estão a ver o ciclo vicioso?
O truque para uma boa interpretação é fazer perguntas. Quantas vezes não respondemos a uma pergunta com outra pergunta?
Afinal porque motivo é que a personagem de “A noiva despida” não sentia prazer? Porque o marido era negligente? Ambos eram incompatíveis? Se sim, porque não se divorciaram? Se se divorciassem o que mudaria na história? A mensagem final ia ser a mesma? O final seria feliz? Uma mensagem de esperança não iria tornar o livro como “um igual aos outros?” Depois de colocar estas perguntas, escrever um texto fica fácil.
Uma coisa que me aflige horrores, é quando vejo ainda pessoas preocupadas com: ai eu acho que não era essa a mensagem que o autor queria passar. Queridos, a menos que façamos uma sessão espiritual e raptemos o Camões, NUNCA iremos saber o que a criatura queria dizer. E o Nandinho então, estava sempre mocado! Se o trouxessemos para aqui só ia querer saber onde estava o haxixe. Isso não interessa pevas quando se interpreta um texto. O que interessa é o que está escrito pelo autor e que tipo de mensagem ou tema ou símbolo é que ele passou tendo em conta: período em que foi escrito/ vida do autor/ etc. As cortinas NUNCA são só azuis, mas se forem algo mais temos de descobrir porquê. E as cortinas não são só azuis porque o autor quis que elas representassem o céu, são azuis porque talvez a personagem ia ter uma menina ou então eram azuis para homenagear a cor dos olhos do amante que morreu. Como sabemos isso? Lendo a história. Quantas mais interpretações um texto tiver, melhor. Ou então, estudando literatura, lendo artigos (google scholar), quantos artigos eu não li enquanto estava com a Anna Karenina. Quantas vezes não a comparei com a Sister Carrie e a Bovary e tentei entender o porquê de todas terem o mesmo fim e mesmo assim eles terem sido todos diferentes. Sim, demora tempo, sim podem dizer que: isto mata o divertimento de ler… Mas acho que é ao contrário. Acho que se ficarmos sempre no mesmo patamar, estagnamos e o que podia ser divertido durante uns tempos, torna-se enfadonho e repetitivo.
Ir a palestras ajuda bastante, muitas na faculdade são gratuitas, cursos online em inglês também são ou então simplesmente ler pedaços de artigos e começar a ir mais além.
A literatura tem muito mais que se lhe diga e por vezes o que leva dois dias a ler, demora duas semanas a entender e esmiuçar. Se de facto ser blogger é quase um part-time, então não devemo de investir? Não devemos ter brio e querer ir mais além? Ou o part-time só vale se for a contactar editoras e livros para passatempo? Quanto tempo demoramos mesmo a escrever uma crítica? A reflectir sobre o que lemos?
Pensem sobre isso!
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About Adeselna Davies

Occasionally works as an English and German teacher, also loves to read all kind of books and wish someone would pay her to read and write reviews forever. She is also a magazine designer and writes short-stories.

4 responses to “Tidy Friday 25!

  1. eu acho que muitas análises prendem-se muito com a história, isto quando não contam por outras palavras a sinopse. Parece-me não haver ali uma distinção entre aquilo que se gosta e a qualidade do livro em si ou seja não há um reconhecimento do livro como bom, independentemente do gosto pessoal. E confesso que me faz confusão quando em romances eróticos se queixam das palavras usadas, não se pode ler um livro deste e esperar que não tenha determinados termos 😀

  2. Adorei esta Tidy gémea!

    Muitas vezes sinto a falta disso, da interpretação, porque todas as histórias são sobre algo ou reflectem mais sobre este ou aquele tema. É verdade que alguns são mais profundos que outros mas se estiver bem escrito geralmente conseguimos tirar algo de lá que não seja só um resumo da acção. Um livro tem muito mais que se lhe diga do que apenas aquilo que está no papel.
    Falas das emoções… eu falo sempre disso mas é preciso dizer porque é que o livro nos faz sentir assim… acho eu!

  3. acho que tudo passa pela mentalidade das pessoas, se querem ou não ir mais além. Se acham que realmente vale a pena.
    O teu texto fez-me pensar, algo que infelizmente não acontece muito na maioria dos blogues. Só por isso o meu obrigada

  4. True, mas também falo como autora. É bastanta frustante quando se escreve algo com tanto por explorar e muitas vezes ficamos com opiniões bastante simplistas 🙂 Mesmo assim se deu para reflectir já é bom, porque era isso que eu queria 🙂

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