O livro da inquietude

O meu pai uma vez disse-me “Tu não podes ir para a Inglaterra.”. Estava no primeiro ano de faculdade e discuti com ele o facto de fazer Erasmus em Inglaterra (Sheffield era a cidade que eu ia escolher). Fiquei um pouco preocupada com a afirmação, pensei que ele ia dizer que eu era imatura ou então que não ia aguentar uma vida longe da minha família, mas apenas respondeu “Se tu um dia fores, nunca mais voltas.” O que os meus pais nunca souberam foi que, embora o meu fascínio por Inglaterra seja grande, a curiosidade por países como Afeganistão e Iraque são ainda maiores. Um dia um Iraquiano perguntou-me como é que eu conseguia ser ateia e não acreditar em nada e, de seguida, perguntou-me se me casasse um dia com um muçulmano, se me converteria por ele. Respondi que seria uma boa hipócrita se me convertesse e aceitasse Alá como Deus, mas não o Deus Ocidental, contudo se isso fizesse o meu hipotético marido mais feliz, e ele soubesse que eu não acreditava, mas que apenas faria por ele. Quando o meu namorado (católico) perguntou-me se os nossos filhos iriam à catequese, respondi “porque não?”. Ele disse que eu era provavelmente a ateia mais tolerante que tinha conhecido. Talvez seja esse mesmo estado de tolerante, que faz com que viva obcecada com o Médio Oriente.

O livro da inquietude
Ann Marlowe
Editora: Aletheia
Edição: 2007
272 páginas
ISBN: 9789896220747

Sinopse:
Um relato sensual, íntimo e corajoso de um caso amoroso avassalador entre um carismático afegão e uma escritora americana de origem judaica que se apaixona pela cultura afegã, O Livro da Inquietude é também uma análise provocadora e original do chamado choque de civilizações. A evocação vívida e audaz de Marlowe da vida quotidiana no Afeganistão dá vida a um espaço luminoso que a autora vê como «a manhã do mundo», fazendo uma redescoberta semelhante de sentimentos quando, deitada com Amir, evoca «a dádiva de amar alguém, que é incalculável», mas que é também «uma terrível distância entre corações».
Marlowe encontra complexidade e beleza no Afeganistão em oposição à caricatura dos homens cruéis e das mulheres oprimidas. Na verdade, encontra muito a aprender no calor, ternura e respeito da vida familiar e do casamento afegãos.

 

Não vou negar que já muitas vezes pensei em usar um Hijab (para quem não sabe é um véu que cobre apenas o cabelo e é usado nos países muçulmanos por mulheres após a puberdade, let’s say young adults?), mas o uso da burca causa-me arrepios. Ann Marlowe discute o uso dos véus na forma de monólogo, apresentando três visões: a de uma mulher muçulmana que gosta de usar, a de um ocidental que fica horrorizado com o uso do véu e de uma pessoa tolerante que crê que o uso do véu deve ser uma escolha e não uma obrigação. Até há um ano atrás sempre pensei que as mulheres queriam usar o véu por ser-lhes incutido, mas afinal se nos países do Médio Oriente está a haver uma libertação e dada opção de escolha nas gerações mais novas, pensei se aparecesse com um hijab na faculdade se iriam pensar que eu tinha enlouquecido, ou se simplesmente iam aceitar a decisão de que eu queria esconder o meu cabelo. Se eu posso decidir usar um hijab em Portugal, uma muçulmana deveria poder recusar-se a usar um no seu país (ok, eu sei que não funciona BEM assim, especialmente no Irão e no Afeganistão).
O livro da inquietude retracta uma relação conflituosa entre dois países e culturas diferentes, protagonizadas com uma história de amor auto-biográfica. Repleta de detalhes culturais sobre o Afeganistão, com um amor que tem tudo para resultar mal, é um deleite para quem tem uma paixão secreta. Não é um livro com grandes simbolismos, significados complicados. Aliás, nem precisa. O tema do 11/10 está presente durante a narrativa e o próprio tema do islamismo é suficiente para o leitor mais comum não querer pegar nele. É um livro que incomoda, talvez por não mostrar a faceta americana da questão, mas sim um meio-termo. A própria relação amorosa sofre desse meio-termo. Amir é um afegão que oscila entre o estilo de vida americano e os costumes e tradições do seu país, ao passo que Ann Marlowe tem de se adaptar e compreender as suas acções.
Em parte entendo o porquê de nenhum blogue literário ter pegado neste livro. Nunca vi uma opinião do livro “Morte na Pérsia” da Annemarie Schwarzenbach, nem deste livro, nem de muitos outros que pegam no Médio Oriente visto por outros olhos. A americanização de um Médio Oriente repleto de terroristas e pessoas estranhas que oprimem começa a estar demasiado enraizado. Mas se para nós estes costumes são estranhos e alguns horríveis e reprováveis (tal como Amir diz: “quero casar-me com uma virgem de 17 anos”), com que olhos é que eles vêm o Ocidente? O que tem o Médio Oriente de tão atraente para chamar autores e leitores ocidentais, talvez fartos do caos e do desencanto do sonho americano que nunca durou.
Vale a pena ler, sem dúvida e ficou como uma das melhores leituras.
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