Mini tidy: betar é porreiro!

Como na sexta-feira o caos esteve instalado aqui na Tidy, decidi voltar à carga hoje com um tema que até me tem espantado bastante: beta readers. Agora é uma moda ser blogger e beta, talvez porque as descrições mais vistas são: beta readers são pessoas que lêem bastantes livros e que têm um sentido crítico. Ler muitos livros ajuda, ter sentido crítico também mas isso não faz um beta reader. Também em Portugal acho que o pessoal ainda não entendeu muito bem a diferença entre um alpha reader e um beta. Mas a gente explica que é para isso que cá “estemos”.
Um alpha reader só faz uma leitura muito superficial do manuscrito. Normalmente este vem quase em bruto e o autor preocupa-se mais em saber se as personagens estão bem caracterizadas ou se a história funciona no geral, sem entrar em pormenores de plotholes. Pode também rever alguns erros mais graves, mas normalmente nem olham para isso porque lá está, o manuscrito está ainda em bruto.
Um beta reader já tem acesso a um manuscrito revisto e pensado quase pronto para ser enviado para as editoras. Normalmente um beta trata de erros de sintaxe, ortográficos, estrutura, plotholes, personagens e a sua caracterização. Normalmente o autor pode pedir aos betas para deixarem a correcção ortográfica de lado, visto que o manuscrito será alterado. O que um autor pode fazer é pegar em 10 betas – 5 revêm a estrutura/personagens; outros erros/estilo de escrita.
Muitos bloggers vêm-me dizer que não se oferecem para betas porque apesar de lerem bastante, não sabem o que fazer com o manuscrito, o que vão dizer ao autor. Isso é normal. Podem ter o sentido crítico que quiserem, meus amores, mas se não souberem pegar num texto e mexer nele, ser blogger e fazerem opiniões de livros não vos vai ajudar. Porque isso é um extra! Há pessoal que não é blogger, que nem lê assim tanta coisa, mas consegue pegar num texto e ver estes aspectos e até sugerir melhorias.
Claro que esta mini tidy Friday veio mesmo por experiência própria: de textos que me chegam às mãos ainda em estado mauzinho mas quando vou ler o que os betas disseram quase me dá um colapso. E depois a Ruiva explode e anda a dizer mal da sua vida durante dias. Eu sinto-me mal por ter que chegar eu feita trenga e dizer à criatura inocente: Olha, isto está muito mau vamos ter de reescrever tudo de raíz! Depois de betas terem dito: está bom. Gostei. E a criatura inocente já queria enviar para editoras tradicionais! Eu sei que o pessoal quer ajudar e os portugueses gostam muito de ajudar o próximo. Mas, sinceramente, fazer beta sem saber betar não é ajudar, é prejudicar o leitor. Vocês são a ajuda que o autor tem antes de pensar sequer em enviar a editoras, dizer que está tudo ok quando não está é mau. Damos esperanças às pessoas e depois quando são recusadas pensam que valem muito e as editoras é que são uma bosta porque não apostam nos talentos… Seriously knock it off. Arghhh it’s so frustrating! Um dia em que eu vir um beta a dizer: esta gaja safa-se demasiado, arranca-lhe qualquer coisa – dou um beijinho a essa pessoa. A sério, sejam agressivos, be bold, be a bitch como a Britney, mas ajudem o pessoal a ser menos certinho com as personagens. Encoragem os autores a fazerem coisas diferentes: olha esta personagem aqui devia de ser atacada por um javali no meio da ponte enquanto luta com um dragão estrábico…

Also não façam reviews de livros que estão a betar! Primeiro é injusto para o autor porque aquele não é o produto final, podemos ser injustos ao dizer que o manuscrito precisa de trabalho (doh) ou então dizer que está tudo fantástico e não estar. Não somos nós que saímos mal, são os autores que começam a ter esperança em vez de estarem a ser ajudados e guiados. Dizer que algo está mau e precisa de trabalho não é um bicho-de-sete-cabeças (a sério, os autores não podem bater em vocês), é algo muito bom: porque é sinal que o autor vai melhorar e que sabemos exactamente o que um livro deve ter. Claro que temos de ter o “sense” de não dizer ao autor: este livro podia ser mais soft, com um tema estilo holocausto. Also, os betas podem desistir das leituras. Claro que devem explicar ao autor porquê: a história não cativou? Porquê? Não faz o estilo da pessoa – então esqueçam lá isso, dediquem-se à pesca e vão buscar mas é robalo fresquinho. Se nunca leram uma distopia, não betem uma distopia. Porque o autor precisa de ajuda, não de alguém que nunca leu nada e como é óbvio pode achar tudo novo e maravilhoso quando isso não é verdade. Não betem estilos que não gostem: se não gostam de romance lamechas não façam beta de romance lamechas. Vão arranjar defeitos em tudo e o autor poderá sentir-se frustrado.
Como vêm, fazer beta Reading é muito mais do que oferecer-se, ler um livro e enviar sugestões. É preciso pensar no que vão fazer, que tipo de livro vão aceitar e que tipo de leitura vão fazer. Se estão a betar um livro com world-build, convém que saibam o que é world-build e vários tipos de. Se nunca leram eróticos, é difícil entender se a prosa está boa ou não, se tem demasiadas cenas de sexo (what the fuck am I saying? There’s never too much sex!! It’s like… bacon), mas funciona ou não. E para percebermos se algo funciona é dar a nossa opinião como leitores mas também a pensar no manuscrito como futuro livro: se eu lesse este livro publicado e desse 17€ por ele: lia outra vez? Quantas vezes é que eu conseguia ler este livro? Só uma? Duas? Vinte vezes? A cada leitura ia descobrir algo de novo? É uma pergunta interessante para nos colocarmos sempre que estamos a ler um manuscrito.
Um último problema dos betas é que infelizmente nem sempre o autor acerta mesmo com o pessoal a dar dicas. Por exemplo, os betas dizem que o início está um bocado seca e precisa de mais acção: o autor pode começar com tudo às três pancadas com imensas cenas de acção e estragar tudo. Ou seja, nem sempre mesmo com a ajuda certa, o autor consegue interpretar o que lhes é dito. Ajuda a entender a dinâmica do livro, mas se o autor não souber fazer melhor, não lhe serve de muito o beta. As pessoas leram, criticaram, ele não soube fazer melhor – não adiantou de muito.
E agora, com licença que vou terminar de ler “A travessia” para postar a review amanhã.
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3 thoughts on “Mini tidy: betar é porreiro!

  1. Carla M. Soares says:

    Eu tive a experiência dos dois lados. Como leitora beta correu mal e correu bem, mas não ponho de parte (embora nem sempre me apeteça), e como autora correu razoavelmente com este último livro.
    Acho que a Ana tem razão na generalidade do que diz, mas há ainda mais um pormenor: mesmo nos betas, não vais agradar a gregos e troianos. Com isto, quero dizer que uns vão gostar e outros não, claro, mas sobretudo que nem todos vão apontar os mesmos aspectos a melhorar. Por exemplo, introspecção: o que os leitores (mesmop beta) vão achar sobre isso vai depender de preferências pessoais – e um beta diz-te que tens demasiada, enquanto o outro acha que é a dose certa. O mesmo com sexo, acção, seja o que for. Interessante é ver onde coincidem as opiniões…

  2. Carla Pais says:

    Por acaso é mesmo isso Carla Soares. Só fiz uma vez de Beta reading e por acaso fui referindo alguns aspectos que a Ana fala, mas confesso que não voltarei a fazê-lo. Não por não ter gostado da experiência, mas sim, por todas essas questões que levanta a Ana… Estou apta para pegar num manuscrito e opinar seriamente sobre todas essas coisas quando no fundo eu própria enquanto autora estou constantemente a precisar que me corrijam as borradas? Numa outra experiência de Beta- reading, mas como autora o caso correu mais ou menos bem, na medida que não me pouparam as criticas pormenorizadas. Aliás antes de enviar o manuscrito fiz uma ordem de trabalhos que queria ver analisados, no entanto houve uma que desistiu por erótica não ser a sua onda, mas antes de o fazer explicou-me que era uma escritora cuja escrita era muito madura e que eu não sabia de todo escrever e ela (21/22 anos) não me podia ensinar isso de raíz, entre outras muitas coisas – confesso que foi um baque do caneco… Estive prestes a eliminar de vez o tal manuscrito… Ser Beta reading tem de ser tudo o que diz a Ana, mas também e essencial é saber fazê.lo com o devido respeito pelo trabalho alheio… Cuidado com isso e se dizer tudo: há formas e formas de dizer as coisas!

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