Tidy Friday #16

Avisei no Facebook que este post será mais pessoal e pode ser um bocado susceptível para algumas pessoas. Um blogger que tenha um blogue de literatura pode muito bem ler a sinopse e escolher não ler o livro. Numa editora isso não funciona. Ok funciona, mas podemos ter fé que o manuscrito seja melhor que a sinopse e pensar que se passado X capítulos a coisa não for boa podemos sempre dizer não. E para dizer não a um manuscrito não é fácil. O editor tem de ler o manuscrito, ver a história, como esta se desenvolve, como é que o autor trabalhou as personagens, o tipo de prosa utilizado etc. Se o manuscrito conter muitos erros gramaticais/ de ortografia pouco de adianta ter 3 ou 4 revisores: um mau manuscrito não pode ser remendado. 

Dado isto, recebi esta semana um manuscrito na editora onde a própria mensagem no e-mail estava pejada de erros gravíssimos. Aventurei-me pelo manuscrito que estava igualmente cheio de erros de gravidade igual. Primeiro penso que é trolling. Ok, alguém deve-nos querer testar e pensar se nós publicamos tudo como as vanities, e penso “falhou”. Segundo, pensei: ok se calhar é mesmo uma pessoa que não sabe escrever e pronto pensou que talvez tivesse hipótese de publicar. Entretanto sigo a minha vida, quando descubro que afinal o homem tinha razão e tinha de facto publicado dois livros na Corpos! E penso: como foi possível alguém ter aceite algo com tantos erros? Não têm brio? Pff who am I kidding? Vanities, bitchies! They want the Money. E fiquei triste pela pessoa, entendem? Pensei que que se tinham aproveitado de uma pessoa quase analfabeta para ganharem dinheiro. And then, my friends, it gets worse!
Embora isto seja a Internet e como diz o meu mais que tudo, já vimos tanta mentira na Internet que ás vezes não conseguimos acreditar nas pessoas. Mas eu acredito na honestidade das pessoas e descubro igualmente que a suposta pessoa é cega e aqui cai-me tudo. E deixo de ter pena. Primeiro porque entendo o motivo pelo qual ninguém lhe disse que ele não sabe de facto escrever e segundo porque uma vanity aceitou e publicou um livro de um homem cego cheio de erros e não teve a bondade de o recusar. Mas depois penso, esperem lá porque o senhor/a é cego/a isso não quer dizer que devemos ter pena. Afinal a pena não leva a lado nenhum e se fosse outra pessoa ninguém tinha em atenção. E então pensei em como a sociedade é hipócrita, que tem pena de uma pessoa com uma pequena deficiência (que não afecta o cognitivo), contudo se a pessoa não tiver nada somos capazes de insultar/gozar, mas se o fizemos a uma pessoa cega já somos considerados horríveis e maus.
Não fui eu que tratei deste manuscrito, porque se o tivesse feito tinha dito (sito antes de saber da sua condição) à pessoa que os erros eram tal forma graves que deveria apostar em formação básica. E mesmo depois de saber dizia exactamente a mesma coisa. Porque ter pena e achar que a pessoa é coitadinha não a vai levar a lado nenhum a menos que a dita cuja saiba onde está a falhar e meta mãos à obra. Ao tratar a pessoa de forma diferente e de forma mais soft não vai melhorar, porque muito sinceramente a pessoa vai continuar enganada.
Quando eu corrigia testes colocava todos os 8-9 numa pilha para ver se conseguia numa segunda revisão ver se podia subir a nota. Contudo numa viagem de comboio apercebi-me que sinceramente o que estava a fazer era horrível. A menos que eu me tivesse enganado a corrigir e aí sim tinha de rectificar a nota, ou a menos que fosse uma 9.4, eu não devia de estar a puxar notas, porque o aluno teve uma negativa, mas podia melhorar para a próxima! E não era justo para os alunos que se tinham esforçado e eu não tinha visto uma 2º vez. Aconteceu o mesmo aqui. Cuidamos sempre para dar o mesmo tratamentos aos autores e somos sempre educados mesmo se as respostas forem tortas trata-se de profissionalismo. A minha pergunta é: A vanity foi profissional ao aceitar dois manuscritos pejados de erros? (A menos que alguém tenha corrigido o manuscrito, e visto que o que nos enviou estava cheio deles, duvido). Fiquei com isto na cabeça porque achei que a sociedade é uma grande hipócrita. Sinceramente o facto de a pessoa ter uma “disabilty” não me faz pensar nele de forma diferente. Continuo a detestar a posição da vanity pelo que fez e continuo a achar que a pessoa precisa de ter formação básica de português.
Espero que para a semana venha com uma Tidy mais animadora.
Por motivos óbvios não vou dizer quem é a pessoa e normalmente não costumo comentar o que se passa numa editora, mas este episódio foi triste e não, não vou apagar este post. Acho que as pessoas devem saber o que se passa e em vez de esconder para “evitar confusões”, devem discutir e reflectir. Senão este post seria todo ela uma grande hipocrisia.
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One thought on “Tidy Friday #16

  1. Leto of the Crows - Carina Portugal says:

    Se o manuscrito estava assim tão pejado de erros, de facto a pessoa em questão necessita de melhorar o português (cego, ou não), a não ser que se esteja a borrifar para isso. Mas nesse caso também um editor se pode estar a borrifar para o manuscrito. No entanto, não gosto de atirar coisas ao ar sem saber como é realmente a pessoa em questão e as suas condições de vida. Também conheço muita gente que me diz “devias aprender aquilo e acolá”, eu respondo “pois, mas não tenho dinheiro para isso” e ainda acham que estou só a arranjar uma desculpa para não desembolsar uns trocos.

    Mas voltando ao assunto inicial, por vezes sinto que há demasiadas pessoas a achar que o que conta é a só a “história” e negligenciam completamente a ortografia/gramática.

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