Contos de amor, loucura, desejos e paixão

Poesia e contos: Só de amor
Colecção “Frente e verso” | Visão
Maria Teresa Horta
Editora: Publicações Dom Quixote
224 páginas

Peço desculpa pela brevidade da crítica de cada conto, mas se fosse a escrever um texto longo seria bastante aborrecido. Antes que me perguntem: adorei a antologia tanto de contos, como poesia e um grande obrigado à Sandra Sousa do blogue “Mil estrelas no Colo” pelo livro! Foi uma linda prenda de Natal!

CONTOS:

Mónica

“Mónica gostava que ele lhe metesse as mãos entre as pernas enquanto ainda estava vestida: os dedos a afastarem a seda das meias, a tentarem alargar o cinto de ligas, a deslizarem na pele macia das coxas, a insinuarem-se já pelo caminho de pêlos até à humidade quente dos lábios grossos salientes e largos da vagina, onde sentia pulsar um perturbante coração afastado.”
Mónica é uma mulher/adolescente? de temperamento frágil, que seduz lentamente Pedro, um médico. Tortura-o, deixando-o louco e desejoso de a possuir. Os desejos de Mónica é várias vezes intercalados com referências a Mahler: um compositor austríaco. Um conto que segue uma estrutura pouco convencional, mas é a prosa é bastante característica de Maria Teresa Horta.

Eclipse

Preferia que tivesse morrido.

A triste história de Laura, uma menina que vê a sua mãe partir um dia e começa a odiá-la. Se no conto anterior existem menções de Nin, Miller e Camus. Neste os dois clássicos Madame Bovary e Ana Karenina são expostos de forma a traçar um perfil da personagem e do seu fim.

Leonor e Teresa

“Lembras-te, Tirce, de quando ias à grade só para me veres uns escassos minutos? Indefesa, Teresa de Mello Breyner confessa lembrar-se de tudo: dos anseios e das demoras, das fugas e das mentiras, da turvação enganadora. Testemunha da transformação da amiga no ganhar das formas, gostos e gestos de mulher dentro de fatos vermelhos vestidos para ir à grade principial nos outeiros poéticos, ansiosa por contrariar as ordens de se apresentar de escuro vindas do déspota ministro do Rei D. José.
Um breve conto sobre Teresa Mello Breyner, condessa do Vimieiro e Leonor de Almeida (condessa de Alorna). (I’m sensing a bit of lesbianism here, but I don’t know if I am right.) Ambas as condessas trocaram bastante correspondência e D. Leonor era versada em poesia e D. Teresa visitava-a bastantes vezes.

Com a mão firme e doce

Enterrou-lhe a faca três vezes no corpo.
Enquanto ele dormia.
Depois ficou ali muito tempo só a olhar.

Renata acaba de matar o seu marido, esfaqueando-o no coração para tentar entender se ele alguma vez o teve. Neste conto trata-se os temas da loucura, muito parecido com a abordagem do mesmo tema em Macbeth, ainda que o fim seja um pouco non-sense. Embora o conto fosse extenso, mereci bem mais atenção. Se gostarem da temática leiam da autora “A paixão de Constança H.”

Uriel

Agrura onde se aguçam tanto as rochas dos teus orgasmos como as pedras que me atiras e eu aceito, até me ofereço a elas neste emaranhado e entorpecente vício do teu corpo, à flor do pulso. Obsessão incontrolada de tocar-te, de arrebatar-te, de raptar-te.

Com uma prosa bastante poética e bonita, um testemunho do amor louco, do desejo, da sensualidade feminina, temas bastante recorrentes da obra de Maria Teresa Horta.

Todos os contos podem ser apreciados para quem já conhece a prosa desta autora portuguesa (A melhor autora portuguesa da actualidade, na verdade). Pessoalmente considero Maria Teresa Horta a melhor autora portuguesa viva. Os contos não seguem bem a estrutura clássica, mas nada disso importa pois dá bem a volta às estruturas, criando pequenos fios e depois cortando-os ao leitor para que ele leia nas entrelinhas o significado das suas palavras.

Azul-da-China

A madre superiora fora espia do pai e delatora, quando de saia-e-casaco preto e chapéuzinho de veludo escarlate a mãe apareceu de visita uma semana depois, parecida com a gravura da Dama das Camélias que Sara se lembrava ter visto num livro: exausta e esguia de tez esvaída com a palidez do desmaio; tom de arrependimento tardio, a prometer baixinho ao apertá-las a si, envolvendo-as na sua essência de nardo: «Eu juro que torno para vos buscar… Eu juro, eu juro…»

Mais uma vez retorna-se ao tema da loucura, desta vez com uma mistura de um pouco de paranormal à mistura. Uma menina louca ou possuída foge do médico e lembra-se de vários momentos antes de ser internada.

Laura e Juliana

Informada dos seus métodos Juliana teme-a (Laura), e ao suor entender, vinda de fora, a sua respiração ofegante, a esgueirar-se trepando, marinhando, rastejando até à cama onde estão abraçados, encolhe-se arrepiada a procurar refúgio debaixo dos lençóis, onde encontra intacto e grosso como um cordão retesado o intenso cheiro a suor dele, numa mistura metálica de zimbo e verdete que lhe exaspera o desejo. E só se tranquiliza quando Junot a puxa para cima, a colhê-la na sua meiga nudez de pétala, para tornar a cobri-la com uma explosiva masculinidade implorativa.

Uma história de vingança entre Juliana, (Não sei se esta Juliana era a mulher do 2º conde de Ega, D. Juliana Luisa Maria Carolina Sofia de Oyenhausen e Almeida) e Laura Saint-Simont Permon, condessa de Abrantes, mulher de Junot. Laura é uma mulher com ciúmes e tenta a todo o custo matar a sua inimiga. O conto termina em tom aberto, mas tudo indica uma tragédia! Embora seja Junot que está a trair a sua mulher, o homem nunca é castigado, mas sim a amante. Um dos melhores contos (verdade é o mais light) da antologia.

Lídia

Abriu as asas. Cintilantes ao sol da tarde.
E voou.

Um conto que mistura a temática da loucura com o corpo feminino. As marcas no corpo sugerem a sua loucura, normalmente na literatura fantasia, quem é marcado ou é o escolhido ou alguém importante. Em “Lídia” as marcas vermelhas assimétricas, como duas marcas de Caim, que são o prenúncio da sua loucura. Os maridos são várias vezes tratados como homens frios, cruéis ou então como homens que simplesmente não se importam o suficiente para notarem que a mulher está doente.

Poesia

A poesia da autora é conhecida pelo seu grande teor poético-erótico. Maria Teresa Horta é responsável pelos poemas eróticos mais belos da actualidade (and by that I mean século XX-XXI).
Destaco um:

Pedido

Deita-te aqui despido
à minha beira.
Vem devagar dizer que me amas
põe-me os teus dedos
debaixo dos cabelos
e inventa tudo aquilo que me chamas
Deita-te aqui, o corpo sobre o meu
A boca, a língua, apenas desviadas
Deixa o meu beijo juntar-se
com o teu
e o meu ventre unir-se
à tua ilharga
Deita-te aqui despida
nos lençóis
onde conheço já o gozo vindo
E tudo faço quando tu
te vens
cobrindo com o teu corpo o meu gemido.
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About Adeselna Davies

Occasionally works as an English and German teacher, also loves to read all kind of books and wish someone would pay her to read and write reviews forever. She is also a magazine designer and writes short-stories.

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