Algo maligno vem aí

Algo maligno vem aí
Ray Bradbury
Editora: Saída de Emergência
304 páginas
Tradutor: Jorge Colaço
*Este livro está com AO, mas a crítica não*

Sinopse:

O espetáculo está prestes a começar. O circo chega pouco depois da meia-noite, nas vésperas do Halloween. O que fariam se os vossos desejos secretos fossem concedidos pelo misterioso líder do circo, o Sr. Dark? O circo a todos chama com promessas sedutoras de juventude eterna e sonhos por cumprir… Dois amigos adolescentes, Jim Nightshade e Will Halloway, são incapazes de resistir às atrações. A sua curiosidade de rapazes fá-los descobrir o segredo oculto nos labirintos, fumos e espelhos do tenebroso circo. Inconscientes do perigo em que se veem envolvidos, uma terrível perseguição é posta em marcha e Jim e Will tudo terão que fazer para salvar as suas vidas. Mas, acima de tudo, as próprias almas… 

Depois de ler “A morte é um acto solitário” não quis deixar de ler o novo livro do autor, publicado pela Saída de Emergência. Apesar de tudo, a barreira do primeiro livro estava ultrapassada e confesso que “A morte é um acto solitário” é talvez mais denso, provavelmente por ser a primeira experiência com o autor. Depois há algo dentro de mim terrivelmente linguista, que faz com que a palavra “wicked” me cause calafrios, ao contrário da palavra maligno, que já expõe maldade. Wicked, é por um lado mau, mas tem um certo encanto, tal como o circo é apresentado na narrativa: algo maligno, mas ao mesmo tempo apetecível.

Já agora, para quem não sabe a quote “Something wicked this way comes” é oriunda da peça de Shakespeare, Macbeth:

2nd witch

By the pricking of my thumbs,
Something wicked this way comes. [Knocking]
Open locks,
Whoever knocks!
[Enter Macbeth]
Macbeth:How now, you secret, black, and midnight hags!
What is’t you do?

A narrativa é dotada de uma simbologia em redor das duas personagens principais: Will e Jim. Will apresenta-se muitas vezes como a verdadeiras personagem principal, devido à sua maturidade, realizando diálogos extraordinários com o seu pai. Will é um rapaz bastante emotivo e tenta entender a tristeza do seu pai:

‘Dad? Am I a good person?’
    ‘I think so. I know so, yes.’
    ‘Will – will that help when things get really rough?’
    ‘It’ll help.
‘Will it save me if I need saving? I mean, if I’m around bad people and there’s no one else good around for miles, what then?’
    ‘It’ll help.’
    ‘That’s not good enough, Dad!’
    ‘Good is no guarantee for your body. It’s mainly for peace of mind – ‘
    ‘But sometimes, Dad, aren’t you so scared that even – ‘
    ‘ – the mind isn’t peaceful?’ His father nodded, his face uneasy.
    ‘Dad,’ said Will, his voice very faint. ‘Are you a good person?’
    ‘To you and your mother, yes, I try. But no man’s a hero to himself. I’ve lived with me a lifetime, Will. I know everything worth knowing about myself –

(…)

‘Yes,’ said his father, ‘I’d be a fool not to know I’m a fool. My one wisdom is: you’re wise.’
    ‘Funny’ Will said, after a long pause. ‘You’ve told me more, tonight, than I’ve told you. I’ll think some more. Maybe I’ll tell you everything, at breakfast. Okay?’
    ‘I’ll be ready, if you are.’
    ‘Because. . .I want you to be happy, Dad.’
    He hated the tears that sprang to his eyes.
    ‘I’ll be all right, Will.’
    ‘Anything I could say or do to make you happy, I would.’
    ‘Willy, William.’ Dad lit his pipe again and watched the smoke blow away in sweet dissolvings. ‘Just tell me I’ll live forever. That would do nicely.’
    His voice, Will thought, I never noticed. It’s the same colour as his hair.     ‘Pa,’ he said, ‘don’t sound so sad.
  ‘Me? I’m the original sad man. I read a book and it makes me sad. See a film: sad. Plays? they really work me over.’     ‘Is there anything,’ said Will, ‘doesn’t make you sad?’     ‘One thing. Death.’     ‘Boy!’ Will started. ‘I should think that would!’     ‘No’ said the man with the voice to match his hair. ‘Death makes everything else sad. But death itself only scares. If there wasn’t death, all the other things wouldn’t get tainted.’

(yes I just quoted almost an entire chapter, fuck off it’s brilliant)

Charles Halloway, prova que a idade mental não corresponde à física. Se, no início do livro os seus 54 anos se reflectiam na sua atitude passiva para com o filho, à medida que os eventos se desenrolam, Charles sente saudades do tempo em que também ele corria como o seu filho. Tanto Will como Charles sofrem uma evolução durante a narrativa. Se Will parece-se com um adulto, ao proteger constantemente o seu amigo Jim, Charles rejuvenesce nas cenas finais para conseguir proteger os rapazes. Embora, Charles seja o único adulto a participar activamente na narrativa, no fim também ele consegue ser um rapaz jovem. Jim, embora seja da mesma idade que Will, apresenta uma idade mental inferior. Sempre em direcção ao perigo, a personagem é a única seduzida pelo circo que precisa de constante protecção do seu amigo. O carrossel é um dos poucos símbolos que representam a mudança de idade.
Todo o ambiente gótico começa pela cena inicial com o caçador de relâmpagos e com o apelido dos rapazes: Will Halloway (caminho sagrado) e Jim Nightshade (sombra da noite). Os relâmpagos e a magia são o prenúncio inicial de que algo não vai correr bem. A magia aparece associada a factores negativos, tal como o facto de os habitantes do circo usaram magia para fins malignos, será preciso, portanto magia, para os derrotar. Os rapazes e a comunidade só estarão livres de perigo se usarem a magia dentro deles através de gestos simples. Para conseguir fazer magia é preciso acreditar que esta existe e quem acredita na magia pode ser jovem sempre que quiser.
O circo, sendo o vilão da narrativa, causa mudanças nas pessoas, manipulando-as e provocando medo, contudo, se as pessoas acreditarem na bondade e na alegria, ao invés da tristeza não há nada que nos faça mal.
Algo maligno vem aí é uma lição de vida contado através de uma história assustadora, repleto de ambientes nocturnos, ilusões, acontecimentos surreais e macabros com a excelente prosa de Bradbury. É um livro que se deve ler devagar, degustar calmamente as palavras do autor, seguir as aventuras de personagens marcantes com símbolos que fluem naturalmente e a tradicional história do bem que tem de vencer o mal.
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About Adeselna Davies

Occasionally works as an English and German teacher, also loves to read all kind of books and wish someone would pay her to read and write reviews forever. She is also a magazine designer and writes short-stories.

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