Onde está o branco em ti?

Onde está o branco em ti?
Ricardo Antunes
Editora: Quinta Essência
Páginas: 176

Sinopse:

O amor está vivo. Temos de o procurar enquanto vivemos. Uma estranha e súbita morte leva um grupo de amigos a procurar respostas que os façam encontrar um sentido para aquele inesperado acontecimento. Numa viagem em que se irão confrontar com o mundo, com os outros e finalmente consigo próprios, vão viver momentos de intensa alegria, cheios de risos e afectos, mas também momentos marcados pelas aparências, pelas lágrimas e pelas desilusões. Gradualmente, aproximam-se do limite a que conduzem as suas opções. Nessa altura, dá-se o confronto entre o desejo de deixar tudo para trás e retomar os dias de sempre e a vontade de penetrar definitivamente no caminho que os levará às respostas que, afinal, sempre procuraram.

Foi com bastantes expectativas que iniciei a leitura deste livro. Estava na mira já há algum tempo, mas só no mês de Dezembro tive coragem de pegar no livrinho, que é curto e é esse o motivo pelo qual teve péssimo rating. Em 176 páginas é impossível contar uma história sem recorrer a infodump. Vários acontecimentos em catadupa fazem com que o leitor seja atirado para um mundo de jovens que não está familiarizado mas isso não importa. O autor esquece-se que existe um leitor e expele tudo o que tem para escrever, sem parar para pensar que talvez convém desenvolver a relação amorosa. O livro peca também pelo excesso de “tell” para momentos cruciais: as personagens começam a namorar, traem, contam aquilo que sentem, sem nunca mostrar afecto ou tristeza ou sequer ciúme. O que resulta num livro oco, com personagens pouco cativantes, num emaranhado de acções pouco racionais de uma juventude perdida, à deriva com filosofia de vida imatura. Prova disso são as constantes faltas que algumas personagens dão na escola, e as constantes tentativas de acordar os “adultos” da sua vida rotineira. Há cenas que não fazem sentido: como quando o grupo faz uma manifestação ao colocaram-se nas linhas de comboio para alertar as pessoas do que a rotina lhe estava a fazer à vida – mas quem é que se mete em frente de um comboio para alertar sobre a rotina?? Se fosse em defesa das crianças com HIV em África, tudo bem – mulheres vítimas de tráfego humano – ok – crianças que são exploradas e ganham 50 cêntimos por dia?? – Sure, metam-se nas linhas de comboio para protestar contra isso… mas contra a rotina? Iam-se matar por causa da rotina?

Outra cena que não faz sentido é quando o protagonista vai a uma entrevista de emprego para apresentador do telejornal porque pensa que vai mudar o mundo (mas ele acabou o secundário?) e consegue o emprego, no meio de 700 candidaturas… sem licenciatura? Sem cunha? By mere pure luck?… are you fucking kidding me? Eu conheço N jornalistas desempregados e o autor escreve sobre um puto mimado de Cascais, que não sabe o que quer da vida e consegue um emprego just with fucking luck? Aqui achei que simplesmente estava a gozar com a minha cara, porque quantas pessoas não conheço com mestrado que não arranjam emprego e aqui está expresso um facilitismo obtuso.
O cerne da história: o amigo que se matou e deixa vários documentos de computador encriptados para os amigos descobrirem, só me deixou um sentimento: dude, you had a lot of trouble before killing yourself! Quer dizer, se deixasse um bilhete – tudo bem. Uma carta, ok… agora vários documentos que são apenas textos de um rapaz em depressão e vagos? What for? Porquê colocar diversas passwords, pistas etc para um amigo tentar encontrar e ler as tuas tretas suicidas? Ele nem explica o porquê de se suicidar, está depressivo, parece que anda a ácidos e puff mata-se… Não é por nada, mas muita gente que se suicida não planeia: saltam de comboio, tomam cianeto, é preciso coragem para chegar ao momento e fazê-lo. Por isso, até o suicídio do amigo parece falso e apenas um conflito estrategicamente colocado para haver história, quando na verdade, não há necessidade nenhuma de haver aquele suicídio.
As personagens são ocas disfarçadas de pseudo-filósofos. Prova disso é como citam Nietzsche, mas não passam de pessoas temperamentais que não sabem o que querem da vida.
MEGA SPOILERS
*you have been warned*
Como por exemplo quando a rapariga trai o protagonista, nem acaba com ele e começa logo a namorar com outro rapaz sem lhe dizer… Ok tudo bem, a rapariga é uma besta, still depois de saber o protagonista diz que TEM SAUDADES DELA!! DEPOIS de ela o trair?! Are you kidding me? Ele nem fica chateado.
MAIS MEGA SPOILERS
Numa saída à noite, um rapaz tenta vender droga a um rapaz do grupo e ele passa-se da cabeça e saca de uma pistola… e foi aqui que o meu cérebro desligou e pensei: quem é o rapaz menor de idade (acho eu), que anda com uma arma na rua? Tudo bem, não sabemos NADA de nenhuma personagem, sem ser que querem mudar o mundo, mas mesmo assim: background, não? Pois…em 176 páginas nope, no time for that! INFODUMP all the way.
O livro tinha claramente muito espaço para explorar, principalmente personagens, de onde vêem, o que estudam, quais os seus objectivos de vida. As emoções tinham de ser mostradas e não ditas, como se o leitor fosse burro e acima de tudo, dar a mão ao leitor. O livro abandona completamente o leitor e nota-se que é mais uma história que o autor quer forçar-se a escrever do que a contar para alguém. Não há um tu do leitor, mas apenas um eu do autor.
Meninos, eu não duro para sempre, mas sigam o que aqui a Ruiva diz, que não se arrependem. Deixem de lado essas tretas do infodump e do tell atabalhoado que só vos prejudica! Invistam no show, desenvolvam as vossas personagens. Levem anos a escrever um livro, isto não é uma corrida para ver quem publica primeiro. Se demorarem anos a escrever algo bom: fantástico. Depressa e bem, há pouco quem. Se o Tolkien demorou anos a escrever os seus livros, não se apressem.
Não duvido que tenha havido pessoas a gostarem deste livro, prova disso são as várias 4-5 estrelas no Goodreads, contudo isso não implica que o livro seja um flop total, cheio de infodump com pouco espaço de desenvolvimento.
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About Adeselna Davies

Occasionally works as an English and German teacher, also loves to read all kind of books and wish someone would pay her to read and write reviews forever. She is also a magazine designer and writes short-stories.

One response to “Onde está o branco em ti?

  1. Por acaso, até teres referido que iria ler, não tinha reparado neste livro, nem me tinha apercebido de que havia um autor Português na QE.

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