O vampiro contemporâneo

Anne Rice simplesmente usa as personagens de Louis, Lestat e Claudia como mensageiros de algo muito superior a um conto gótico. Começando aos poucos com o início da entrevista ao vampiro Louis guiada por um rapaz sem nome, recuamos até ao século XVII quando o vampiro Louis, atormentado pelo recente suicídio do seu irmão é transformado pelo vampiro Lestat, um homem entediante e pouco culto.
Ambas as personagens são os opostos: Lestat gosta de brincar com as suas vítimas e não questiona a sua condição de vampiro, enquanto Louis tal como Claudia, fica obcecado com a sua identidade e tentativas sucessivas de descobrir o que significa ser um vampiro. Lestat pouco importado com estas questões pouco pragmáticas ocupa-se em viver uma vida despreocupada às custas de Louis. A humanidade em Louis desaparece aos poucos, tal como algumas das suas memórias. Poucas são as vezes em que ele relembra a sua família ou a figura de Babette, o seu primeiro amor, e a primeira pessoa viva que soube que ele era um vampiro. Filho de Deus ou de Satanás esta será a dúvida que Louis nunca conseguirá esclarecer, pelo menos enquanto permanecer na companhia de Lestat. O rompimento só acontece quando Claudia, uma miúda de seis anos, é transformada por Louis e Lestat após uma crise de consciência. Claudia permanecerá para sempre como uma rapariga pequena, uma boneca demoníaca, pronto a explodir de ódio, quando descobre que nunca crescer e amar livremente Louis. Embora Louis seja pai, amigo e amante de Claudia, as implicações pedófilas da personagem conseguem aumentar substancialmente a densidade do livro.
Claudia pode não crescer fisicamente, mas evolui psicologicamente tornando-se numa “mulher” fria, manipuladora, ciumenta e desinteressada com tudo. As bonecas com que se divertia deixam de lhe interessar e só os encontros com outros vampiros e adopta as próprias perguntas de Louis em relação ao sentido da vida/morte. Através da personagem de Claudia Anne Rice sobe mais um patamar em direcção à homossexualidade. A menina é apresentada como filha tanto de Louis como de Lestat, quando estes moram na mesma casa como uma família normal. Os anos passam sem que o leitor se aperceba e só pequenos símbolos como peças de roupa ou até no fim a sirene, contribuem para situar o leitor no tempo. Outro tema bastante recorrente na literatura e especialmente (se verificarem na literatura de vampiros, tirando a saga “True Blood”) existe a necessidade constante de viajar. De Nova Orleães para a Europa de Leste, Paris, Egipto, Ásia, embora nem todos os locais possam ser agraciados com descrições ricas, Nova Orleães e Paris são os dois focos principais na narrativa de Louis. Principalmente devido à existência de outros vampiros. Se em Nova Orleães Louis não encontrara quaisquer vampiros, em Paris no “Theatre des Vampires” existe um nicho deles, onde Louis encontrará Armand e perderá a sua filha/ amante. Mas quando a era de Claudia acaba, começa uma fase repentina com o acordar da homossexualidade entre Louis e Armand. Louis que sempre se apresentou um vampiro sério e filosófico, não resiste aos encantos de Armand e acredita que encontrou a pessoa ideal para viver a morte sem questões, apreciando a arte e longe de Lestat e de Claudia.
Mais do que a história, o ponto forte da narrativa são as personagens e o que cada acorda dentro de nós: desde ódio até ao amor doentio, a perseguições filosóficas da vida, cujas respostas são impossíveis de obter, a passagem do tempo completamente efémera, mas também entediante, as pessoas que de alguma forma evoluem, mas que no fundo todos procuramos o mesmo: tal como Louis todos nós procuramos uma verdade absoluta, na qual nunca vamos ter resposta. Quando o livro acaba ser vampiro é muito mais do que ser um monstro ou filho de Satanás. É um modo de vida, uma constante busca de sentido para a morte.
Do catálogo da Europa-América constam ainda (por ordem)

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