Escrever um livro só porque sim!

Começo por dizer que a Presença tem um catálogo fantástico, onde publica os meus autores favoritos: Henry Miller, Kafka, Toni Morrison, Charlotte Brontë, Emily Brontë, Ursula Le Guin, F. Scott Fitzgerald, entre outros. Se algum dia conseguir finalizar dois projectos dos meus, tentarei sem dúvida enviar algo para lá. No entanto, depois caem-me no colo livros como este! Não sei como um autor consegue construir um livro pior que o primeiro, mas a verdade é que conseguiu. Se o anterior era uma cópia do Vampire, The Masquerade com laivos de Anne Rice; este não tem ponta por onde se lhe pegue. Vamos outra vez por partes.
Eu sabia que:
1 – o livro ia começar onde o 1º terminou, num pseudo-cliffhanger só para haver 2º livro, quando não havia necessidade nenhuma;
2 – já não iria haver aquela evolução da linguagem que achei positivo no 1º volume;
3 – achei que iria haver outro tipo de evolução (mais acção).
Posto isto, tenho a dizer que não entendo a necessidade deste livro, não traz nada de novo tanto à história como às personagens e só serve para o ódio face ao Daimon aumentar.
A história é igual à primeira, há alguém que quer governar Arcana e por isso metem uma bomba durante uma reunião para assinar tratado de paz… e basicamente é isto. Sinceramente não sei o que é que o trono de Arcana tem assim de tão especial. Talvez faça com que os homens fiquem mais bonitos, ou musculados! Ou talvez seja o look! Se o trono for como o Iron throne, aqui a miss também quer um! Entendo que a vingança e a busca pelo poder seja algo recorrente na literatura e até é um tema bastante interessante, quando pensado com calma. Aqui houve apenas reciclagem de história e de vilão, o que mostra falta de originalidade. Outro aspecto menos positivo foi as cenas de acção e a espécie de “policial”. Ora bem antes que comece a debitar li alguns livros de vampirologia e sei de cor (I am not ashamed of my geekness!) os poderes dos vampiros. Os vampiros de Arcana… bem são uma bosta! Têm de andar com cuidadinhos para não serem apanhados e pelos vistos o único poder que têm é adormecer pessoas (e leitores ba dum tss!) Podiam transformarem-se em morcegos, em nevoeiro, sacar de uma hipnose ou sei lá são vampiros, estão mortos, têm poderes! Senão qual é o objectivo de ser vampiro? Ficar emo para toda a eternidade? Se estão mortos e bebem sangue… ao menos uns poderes para brincar de vez em quando! O problema é que têm de ter tanto cuidado e são tão inúteis que em vez de fazerem eles a pesquisa, não! Andam atrás dos jornalistas que cobriram a explosão e antes de eliminar as provas ficam com elas para tentarem arranjar o culpado! Ora se os jornalistas mortais são melhores que os vampiros… estamos mal!
As personagens…. bem ainda são pior que o primeiro! Daimon continua a ser maravilhoso e a prever tudo na perfeição! Tem sempre planos fantásticos que resultam e está sempre com premonições certas. Continua a queixar-se de tudo e a ser o melhor.
A Lilía deixa de ter peso e passa apenas a ser a sidekick e o Janus é um fantoche nas mãos do Daimon. Aliás o próprio admite que quem devia governar Arcana devia de ser Daimon e não eles, visto que Janus está sempre fora de cena e nunca faz nada de importante.
As personagens secundárias estão lá só mesmo porque é conveniente, mas a maioria não tem peso, tirando o Terium! A única coisa que achei bem construída foi o Terium, um vampiro louco com um pinguim imaginário que introduziu algo de humorístico.
Basicamente o primeiro livro podia ter sido dividido em três partes onde cada século poderia corresponder a um volume e assim teríamos aproveitado mais do universo. Assim temos apenas dois volumes chatos e repetitivos. Muito sinceramente fiquei surpreendida pela Presença ter publicado estes dois volumes e ainda um terceiro (que irei ler, duas desgraças nunca vêm só). Não entendo como num catálogo recheado de livros excelentes fica manchado com obras de fantasia com baixa qualidade marcadas pelo plágio (falo do primeiro livro de Sandra Carvalho e este). Custa-me enquanto crítica ter que dizer isto, mas não sei como é que alguém dá mais que 1 valor a um livro tão mau. Acho que as pessoas chegam a um ponto em que pensam que apoiar o que é português é incentivar. Eu prefiro incentivar autores que têm qualidade, que sabem escrever e que não plagiam. Depois tenho de aturar os autores que não foram publicados a chorarem-me ao ombro a dizer “Mas o livro é uma bosta e foi publicado, porque é que eu não fui?” E o que é que eu respondo a isto? Expliquem-me! O que é que eu lhes digo?
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About Adeselna Davies

Occasionally works as an English and German teacher, also loves to read all kind of books and wish someone would pay her to read and write reviews forever. She is also a magazine designer and writes short-stories.

12 responses to “Escrever um livro só porque sim!

  1. Dizes “A vida é injusta e os editores do Fantástico em Portugal são incompetentes e não sabem o que andam a fazer”. Simples!

    O problema da Presença é querer ter catálogo para fazer frente à SdE no campo da literatura alternativa. Infelizmente ainda ninguém na empresa se mentalizou de que eles são apenas uma editora de literatura geral e de que esta tentativa desesperada de conquistar um mercado só está a desviar fundos que poderiam ser mais bem aplicados noutros livros de áreas em que já têm experiência suficiente. Granted, já publicaram obras alternativas boas (a série Mortal Engines de Philip Reeve, por exemplo). Mas só porque um relógio quebrado continua a acertar nas horas duas vezes ao dia, isso não significa que não deva ir ao arranjo. E o arranjo para a Presença segue dois caminhos neste caso: ou desistem da litratura alternativa de vez, ou encontram editores que percebam o que andam a fazer.

  2. Não li, e estas palavras (fortes, porém sinceras) não me incentivam a fazê-lo. Outra coisa, não há vampiros chamados Carlos? Ou Miguel? As histórias de vampiros cansam-me um bocado, mas estes elaborados ainda me cansam mais. Não há ninguém que escreva “O Vampiro Tó Vai Fazer Uma Limpeza Bocal”? Já vai sendo tempo.

  3. E é com pesar que o faço, Joel!
    As personagens são: Daimon DelMoona, Lília Whitemoon, Janus MoonHunter, Andrew Blackrose, Lucrétia, LaLuna (no 1º), Alexander Phoenix, Pandora DarkMoon, Ascelli NightStar etc…

  4. Mas sinceramente digam-me: haverá em Portugal autores de literatura alternativa, bem escrita, adulta e crítica capaz de competir sem vergonha com aquilo que se produz lá fora? Sinceramente duvido muito. E o problema é que a bosta vende e, quanto mais vender mais se publica. A Presença já publicou autores como Neal Stephenson, John C. Wright, Dick e Leguin. Mas venderam? Claro que não. Tb me publicaram a mim e eu vendi? Claro que não.

  5. Lembram-se daquele conto do William Tenn onde a literatura se ia tornando cada vez mais facilitista para atingir um número cada vez maior de leitores? Até que, no final, da inteligência colectiva da humanidade pouco ou nada restava. No conto, a espécie humana só tinha utilidade para lançar frisbbies aos cães.aliás é mais fácil publicar-se bosta, porque a bosta vende e um bom livro não. Então onde param os leitores críticos e informados? Ora, há muito que deixaram de ler o que se publica em português. Tal como eu, entregaram-se à Tia Amazon e fizeram eles muito bem.

  6. Visitem o grande horror em que se transformaram as bancadas da Fnac. Onde é que está um bom livro de FC, um bom livro de horror, uma boa história alternativa? Em lado nenhum. Só histórias de adolescentes para adolescentes. Com anjinhos, vampiros, lobisomens e meninas com carinha de bofetada. Todos com títulos do género: Estropiada, Vomitada, Raptada, Entediada, Estampada. Livros que se vendem. E vendem-se porque os desgraçados dos leitores juvenis há muito que perderam o termo de comparação.

  7. Eu ainda resisto. Este livro de facto tem poucas estrelas, visto que é o 2º e muita gente desistiu no primeiro. Como foi-me emprestado e não gastei nada, não há problema. Ainda hoje vi uma opinião de um livro pavoroso, onde se faziam elogios ocos e repetitivos à obra. Claro que a editora vai aproveitar a opinião e publicar como se fosse a melhor crítica que houvesse.

    Prometo educar a minha irmã de forma civilizada na literatura.

  8. …mas se forem lá fora, direi eu, a Vigo ou a Badajoz, se visitarem a livraria do El Corte Inglés, hão-de descobrir excelentes traduções dos autores mais recentes e até mesmo bons livros de autores espanhóis. Às dezenas. E está lá tudo. Gregory Benford, Larry Niven, Delany, Dick, and so on…como é possível que uma linha virtual que demarca a fronteira entre nós e eles, seja de facto uma linha que compõe um abismo sem limites? Conseguem as editoras portuguesas vender os nossos Loureiros lá fora? Nem pensar. Riam-se de nós.

  9. Obrigado Ana. A sério. Era preciso mais gente como tu e a Alexandra apontar o dedo e dizer que o Rei vai nu. Estou neste momento a ler o extraordinário romance, O Mapa do Céu do Felix Palma e já tenho o Mapa do Céu à espera de ser lido. É um óptimo livro steampunk, foi publicado em português, mas houve algum dos bloguistas que deidifica as Sandras, os Loureiros ou os Farias que tivesse falado dele? Nope. Provavelmente não se vendeu, o que vai pôr em risco a edição portuguesa do segundo e terceiro volume. Outro excelente livro de Fc, o LIMITE do Schatzing passou pelas bancas completamente ignorado. Assim como o outro livro dele, O quinto Dia. E ainda se lembram dos Livros de Vidro dos Devoradores de Sonhos? É uma trilogia deliciosa que tu haverias de gostar, Ana. Mas só saiu por cá o primeiro, ignorado por todos. Este é o estado da nação. E não há volta a dar-lhe.

  10. Discordo, como tenho mesmo de discordar, João. O grande problema é e sempre foi, com a literatura alternativa, que não há publicidade. O editor portuguê encara os géneros Fantástico e Ficção Científica como produtos de mercado negro. Produtos que pela sua mera existência vão ter um grupo muito restrito de pessoas (os fãs) a tentar deitar-lhes as mãos. O problema é que não se apercebem, a maior parte das vezes (e ainda é pior quando se apercebem), que esses grupos são minúsculos. E que esses grupos não crescem com divulgação própria mas sim com divulgação livreira. Ninguém ignora nada que tenha boa publicidade. Essa é das regras fundamentais de marketing. Mas sem marketing mata-se a ideia no útero, e os livros ficam a ganhar pó nos armazéns.

    Depois temos, claro, a praga dos bloguistas. Concordo contigo, a Ana e a Alexandra deviam ter um monumento à sua honestidade por fazerem aquilo que qualquer pessoa devia fazer: emitir uma opinião racional e honesta sobre o que lêem. O comum leitor português, mesmo de lit. alternativa, é tacanho e não sabe distinguir qualidades. Como se costuma dizer, “qualquer merda serve”. E o leitor comum é o bloguista comum, pelo que as opiniões que por eles são emitidas são uma gigantesca pilha de bosta.

  11. Palavras, cruas, nuas e duras… e ainda bem que assim é.
    Não poderei desenvolver muito sobre este livro, pois não o li, nem conheço o seu autor. No entanto e por muito que custe a rudeza das palavras, é a tua opinião e rareiam este género de opiniões….
    Na grande maioria dos blogues que leio por aí, é tudo fantástico, especialmente quando temos uns passatempos e uns livritos de borla.
    Desculpem os leitores e os editores, mas comigo não contam. Já existe gente a mais para isso.
    Parabéns pela crítica.

  12. Tomei nota de algumas referências feitas pelo mister Barreiros. A encomendar assim que possível.

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