Nunca misturar religião com guerra e romance

Nas asas do amor
Wings of glory 1
Sarah Sundin
Editora: Quinta Essência
Páginas: 456
Um bom livro tem de ter uma história interessante, que cative o leitor; personagens que ajudem a acção do livro e estabeleçam uma conexão com o leitor e uma estrutura que não quebre o ritmo de leitura. São estes três ingredientes simples que constituem o básico dos básicos para um livro ser aceitável.
“Nas asas do amor” começa com uma premissa boa. A autora consegue iniciar o livro com as personagens e duas situações que logo despoletam a acção principal da história. Até mais ou menos 20% do livro a história segue um rumo bom. Conhecemos Allie, uma mulher que está noiva de Baxter há quatro anos, mas que só se irá casar com ele por causa dos pais e da sua empresa. Desde cedo é possível caracterizar um pouco Allie como uma espécie de Cinderella: ela é linda, mas os pais dizem que é banal; ela é inteligente e até tirou um curso de gestão, mas os pais preferem que seja um desconhecido a dirigir a empresa. Quando Allie conhece Walter Novak, tudo muda. Walter pelos vistos também é uma pessoa supostamente atraente, mas que por algum motivo também teve poucas aventuras amorosas. Assim estabelece-se uma premissa para o final: Allie tem de ficar com Novak. Afinal Novak é perfeito para ela e a química é, desde cedo, evidente.
Contudo, a partir do momento em que Allie e Novak se sentem atraídos um pelo outro, a autora decide que separá-los será a melhor solução. Cá no burgo também achamos que sim! Afinal se ficassem logo juntos passadas 50 páginas seria uma maçada. No entanto numa estrutura narrativa que tinha tudo para funcionar, acaba por ruir a história. Quando Allie se separa de Novak torna-se submissa, hipócrita e até mesmo chata. Em vez de seguirmos uma linha de narrativa com acção (como quando seguimos a de Novak a lutar contra os alemães), seguimos Allie constantemente a criticar os outros e a ela própria. Allie desdenha a igreja que frequenta porque diz que as pessoas lá não são crentes a sério, Allie diz que deve seguir o que os pais dizem fervorosamente, mas logo a seguir pede a Deus (numa atitude de beata virgem) que lhe mostre o caminho e, se for a vontade de Deus (wtf?) ela casa-se com o Baxter… Não temos nada contra a religião, certo? Nem que tenhamos! Trata-se de um livro, mas quando uma personagem pede a Deus que decida a vida por ela, depois de criticar os pais por não serem VERDADEIRAMENTE religiosos (whatever this means), a personagem principal torna-se um autêntico bocejo. Na verdade, segundo o narrador é Deus quem vai indicar o caminho a Allie, enquanto ela espera a rezar todos os dias, que Este lhe resolva a vida. Aprendam, meus amigos, que nós aqui não duramos para sempre! A autora a partir daqui perde o leitor e a história. Em vez de termos acção, temos constantes queixas e apelos de Allie para que Deus lhe “indique o caminho”.
Uma alcunha mais potente para Allie seria mesmo Mary Sue! Ela é bonita, ajuda os mais desfavorecidos, todos gostam dela menos os pais (provavelmente porque são umas bestas, e eu acho que a Allie é adoptada). Só na cabeça da Allie é que ela é feia e péssima em tudo que faz. Na verdade não há nada pior que uma heroína com baixa auto-estima.
O irónico nas personagens é que todas elas são beatas extremamente fervorosas, mas no entanto cometem pecados (mentem, são falsas) sempre, claro, com uma tentativa de justificação válida. O Novak mente, porque quer o melhor para Allie (nem que isto signifique que ela case um traste de homem), a Allie mente ao Novak porque … I have no idea why! A autora cai no erro de esticar a corda de certa forma, que no fim o leitor já nem quer saber com quem é que a Allie casa, só queremos que ela se cale de uma vez por todas!
A nível de descrições de batalhas tem algumas partes bem conseguidas, alguns momentos engraçados, no entanto quando é suposto haver momentos de dramatismo é tudo levado com ligeireza, porque o foco é Novak e Allie, não o resto das personagens, cujo destino é-nos dito através… de Allie e Novak!
Em suma, “Nas asas do amor” é um livro que vai deixar provavelmente muitas mulheres com a lágrima no canto do olho, mas ainda assim somos esmagados com más decisões por parte das personagens e onde estas têm a profundidade de uma folha de papel. O leitor tem de seguir os queixumes de uma personagem mimada que só muda mesmo na última página. Sendo este o primeiro livro da autora, as falhas poderão ser colmatadas num segundo livro.
Por muito que gostasse de ler o segundo livro para ver a evolução da autora, se a autora mantiver uma visão de religião exacerbada, duvido que consiga chegar até ao fim.
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About Adeselna Davies

Occasionally works as an English and German teacher, also loves to read all kind of books and wish someone would pay her to read and write reviews forever. She is also a magazine designer and writes short-stories.

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