Um Cappuccino Vermelho

Um Cappuccino Vermelho

Joel G. Gomes
Edição de autor
Páginas: 260
As pessoas que conhecem Ricardo Neves dividem-se em dois grupos: os que o conhecem como autor de policiais e os que o conhecem como assassino profissional. Ricardo sempre cuidou para que estas duas facetas da sua vida não misturassem. Tudo se complica quando recebe uma lista de alvos demasiado próximos do seu mundo de escritor. A colisão torna-se inevitável e Ricardo não tem como a impedir.
Um livro que ainda não é um livro, mas sim um manuscrito. São raros os livros que tenho apanhado para ser beta-reader que estão verdadeiramente terminados. Escrever um livro é um processo longo e enquanto escritores somos os piores críticos de nós próprios.
Este livro peca por ser algo que não é. É um policial com alguma crueldade, contudo o autor sufoca o leitor com todas as informações. A velocidade dos acontecimentos leva a que o leitor se sinta perdido numa história pouco original. O prólogo deveria lançar o leitor para o mundo, no entanto apenas serve para confundir o leitor ainda mais. Porque é que Ricardo se tornou um assassino, qual o background dele: se até mais de metade do livro não sabemos isso… citando os Metallica: nothing else matters. A história relembra a série “Castle” ao contrário: em vez de ser um escritor que ajuda a polícia é ao contrário, o assassino que é um escritor (e for God sake como é que um assassino consegue matar, sem nunca ninguém descobrir? É impossível ele ser assim tão bom, é humano –after all.) Uma série de coincidências deita por terra qualquer credibilidade da história. Ok, é ficção, I get it, mas parece tudo demasiado bem feito para que a personagem caia em situações e cometa erros, quando supostamente ele é bom naquilo que faz. Não podemos meter os nossos heróis com burricite aguda para fazer a história avançar.
A acção é pouca e quebrada. Por exemplo:
“Se tivesse tempo, talvez comesse uma sopa. Talvez. Por ora, programara vinte minutos para aquecer uma pizza no microondas, tomar contacto com a lista enquanto comia e preparar as coisas para começar o serviço. Levantou-se do sofá e caminhou até à cozinha. Abriu o frigorífico e tirou de lá uma pizza. Queijo, cogumelos, fiambre e ananás eram os ingredientes mencionados na embalagem; isso e mais uns compostos e reguladores que ele não sabia para que é que serviam. Rasgou o invólucro de plástico que protegia a pizza das impurezas do ar e das demais superfícies e colocou-a no prato giratório do microondas.
Seis minutos era o tempo indicado na embalagem. Durante esse período deixou-se ficar em frente ao microondas, sujeitando-se às suas radiações. Agradava-lhe observar o efeito das ondas de calor no que em breve iria ser o seu almoço. O queijo derretido acompanhava, com o seu borbulhar, os movimentos convulsivos da massa. Era um bailado alimentar que ocorria perante os seus olhos de espectador atento. Os seis minutos estavam prestes a terminar. A campainha tocou, avisando-o de que o almoço estava pronto. Ricardo abriu a porta do microondas, pegou num prato e, socorrendo-se dum garfo e alguma genica, tirou a pizza do prato giratório e passou-a para o outro prato. Com um punhado de orégãos deu um último retoque no quadro. Para acompanhar a pizza escolhera um refresco de café com sumo de laranja e canela. Abriu o envelope com a faca e tirou cinco folhas de cores distintas, contendo o nome, a morada e uma fotografia da pessoa a eliminar, entre outros dados mais ou menos importantes.”
Esta rotina antes de um homicídio leva o leitor a desesperar com um desenvolvimento mais rápido. Quando chega à cena dos homicídios, estas acontecem num ápice, exibindo uma crueldade para o leitor que quer sangue e detalhes.
“Já conseguia ver Zé Drops, mero animal humano, reduzido ao mínimo dos movimentos provocados pelo medo. Via-o ajoelhado no chão, virado para a parede, rezando para o grafitti à sua frente. Como se fosse o vitral de uma igreja. Como se representasse toda a fé que Zé Drops nunca tivera. As suas orações foram interrompidas pela voz forte de Ricardo. “Levanta-te.” Zé Drops engoliu em seco e decidiu obedecer. Levantou-se devagar. Conseguia sentir o cano do revólver encostado ao seu pescoço. Se agisse rápido, talvez conseguisse virar-se, agarrar no revólver com uma mão, e dar um valente murro no focinho do gajo que o estava a ameaçar.
Se.
Zé Drops não era rápido e sabia disso. Os seus reflexos eram péssimos. O seu fim era iminente e ele sabia-o. “Olha para mim.” Disse Ricardo.
Zé Drops virou-se para encarar a cara do seu carrasco. Se a Morte tivesse uma cara seria aquela. Insensível, neutra sem, porém, conseguir esconder um leve sorriso ao fazer o seu serviço. “Não me mates! Por favor! Faço tudo o que tu quiseres!” Zé Drops começou a chorar como o cobardolas que era e Ricardo fez-lhe o check-in para o outro mundo com uma bala no centro da sua grande testa.
A bala penetrou-lhe o crânio. Um buraquinho minúsculo à entrada e buraco enorme à saída, como marca da sua breve estadia. Os miolos de Zé Drops jorraram como confettis do interior da sua caixa craniana para o chão acompanhando a queda do seu corpo. Salpicos reluzentes de sangue deram à cena um ar de festa de noite de fim de ano. Mas em silêncio.”
O leitor não consegue sentir terror, nem medo ou angústia.
O que nos leva às personagens. Ricardo é supostamente um assassino frio e calculista, gosta de executar tudo limpo, na perfeição, porém quando é confrontado com uma mulher, esta exerce sobre ele um poder enorme, que o leva a fazer coisas inexplicáveis. As vítimas têm pouco tempo de antena e é tratado através da técnica do infodump e mesmo a personagem principal é impossível simpatizar, devido ao excesso de detalhes sobre a sua rotina. Se o autor tivesse explorado a mente de um assassino, o livro saia a ganhar.
Os momentos mais bem conseguidos são:
– a ligação entre o título e a história; 
– o título e a imagem da capa; 
– algumas informações sobre o café, logo no início, embora estas sejam despegadas da história em si e precisassem de ser integradas ao longo do livro.
Penso que o autor tinha beneficiado de uma leitura e pesquisa aprofundada de várias mentes de assassinos ou da leitura dos grandes mestres de policial: Raymond Chandler, Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, um pouco de Edgar Allan Poe e para quem gosta dos mais recentes livros da trilogia Millenium, os nórdicos andam a apostar bastante nos policiais. É uma questão de perder tempo primeiro com os grandes e depois ir até aos portugueses Dennis McShade. O importante é não ir abaixo e tentar melhorar sempre!
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