Uma prisão banal

Incarceron
Catherine Fisher
Editora: Porto Editora

Sinopse:

Imagine uma prisão tão vasta que abrange masmorras, galerias, bosques de metal, mares e cidades em ruínas. Imagine um prisioneiro sem memórias mas que nega pertencer àquele lugar, mesmo sabendo que a prisão se encontra selada há séculos e que apenas um homem conseguiu escapar. Imagine uma rapariga condenada a um casamento de conveniência e a viver numa sociedade futurista, vigiada por um sistema sofisticado de inteligência artificial mas concebida à semelhança de um cenário do século XVII. INCARCERON é a prisão viva que observa tudo o que se passa dentro dos seus muros. Finn é o prisioneiro e Claudia a filha do guardião da prisão, que vive num mundo exterior onde pouco se conhece sobre INCARCERON. Ao encontrarem uma chave de cristal que lhes permitirá comunicar, os dois engendram um plano de fuga numa corrida contra o tempo. Mas INCARCERON vigia-os e a evasão exigirá mais coragem e tornar-se-á mais difícil do que pensam.

Há uma palavra que define muito bem este livro que é “meh”. Um estrangeirismo, um grunhido… não sei muito bem, mas durante a leitura do livro a única coisa que sentimos é “meh”, um suspiro ou outro, bem nada mais avançado para cardíacos. O que é pena… “Incarceron” é um livro cheio de ideias boas, cheio de potencialidades, mas com uma escrita banal e um aproveitamento de todas as potencialidades nele encerradas de bradar aos céus. Fisher não é uma boa escritora e o livro é a prova que nem sempre um escritor para ser bom, tem de ter uma ideia boa. Comecemos por fases:

  • História: A história de “Incarceron” é assim uma coisa abrupta. Sabemos que há uma prisão, que há um “Outside World”, sabemos no mundo exterior há uma monarquia que é governada por um rei e por um rainha. Sabemos também que o ambiente na corte é de cortar à faca: como? É-nos dito! Ou seja o leitor é “spoon-fed” com informações que não sabemos muito bem para que servem. A história é cercada de clichés e não há momentos de suspense ou que levem o leitor a suspeitar. A personagem Finn tem tudo para ser o “lost prince”, mas será que o é? Bem ao longo do livro é óbvio que muito provavelmente SIM. A menos que a autora invente assim um cliffhanger magistral digno de um Nobel!

  • Personagens: As personagens estão muito mal feitas. O Finn é um bróculo que anda de um lado para o outro e que só quer sair da prisão. A Cláudia é outro vegetal que anda lá a fugir do pai! O pai, o Warden da prisão, é mau e o pau-mandado da rainha, vá-se-lá saber porquê! A rainha também é uma vibora horrorosa, sabe-se-lá porquê! O Jaren que anda lá aos tombos quase a sucumbir é um cobarde que tem medo do Warden… há personagens interessantes? Muito sinceramente se analisarmos: não… Acho que os escritores de hoje em dia estão com a mania de “Isto é young adult por isso podemos colocar personagens de papel/cartão sem profundidade, porque os miúdos não vão entender.”
  • World-build: Visto haver dois mundos, tenho a dizer que o mundo da prisão é mais interessante e rico. Com um problema: a escrita da Fisher é média, ou seja, quando descreve é muito difícil para o leitor visualizar o cenário. Poucos autores conseguem fazer com que o leitor visualize o mundo de uma forma boa. Fisher não consegue fazer isso, o que torna o world-build um bocado vago. A prisão é um sítio mau, horrível, assustador… mas quando se está a ler não se sente isso. Ok não é o sítio mais agradável do mundo… mas entre a prisão e a corte onde não se pode respirar… venha a prisão!
  • Steampunk: A razão principal pela qual comecei a ler o livro, foi por ser tratar de Steampunk… bem eu acho que depois de ler este livro fiquei em dúvida: steampunk onde? A maior parte das obras de steampunk têm personagens fortes, cenas de acção… Incarceron parece-me uma fraca tentativa de “Steampunk” para jovens.
  • Temas: Eu aprecio a forma como Fisher pensou na prisão como um sistema utópico e como muitas vezes os humanos destroem as coisas mais belas que criam, contudo esta ideia foi mal aproveitada, tal como todas as outras.
Para amantes de “Steampunk” acho que o Incarceron não satisfaz, para os amantes de literatura então ficam-se pelas primeiras 50 páginas. Como neste blog tento fazer críticas onde aplico as impressões do livro mais algumas ideias aprofundadas, tenho a dizer que lamento estarmos a criar na sociedade livros para jovens que não constituem nenhuma desafio cognitivo. Até porque é difícil para jovens imaginarem a vida numa prisão, ou sequer terem uma imagem clara do que é a prisão e ao fazer isso com personagens e uma história óbvia, penso que estamos a criar uma sociedade onde qualquer “porcaria” vira “hype“. Não estamos a analisar o que lemos, apenas estamos a ler letras e palavras e não as associamos a nada.
Este livro ajudou-me bastante a escrever o meu artigo sobre se o Steampunk poderá ser “estragado” com adaptações para um público mais jovem. No início do meu ensaio disse que não, que isso seria impossível. Uma obra de Steampunk é algo complexo onde temos de criar um mundo alternativo, com muita informação sobre química, física que não é acessível a todos. Contudo “Incarceron” pôs-me a pensar se, se apelidarmos esta obra de steampunk, é isto steam?? E o “Boneshaker”?? E o “Soulless”?? E o “Her own devices”?? Livros onde temos uma exploração de um mundo Steampunk sólido, com detalhes interessantes e que captam a atenção? O Steampunk é uma maneira muito boa de trazer uma série de matérias ao público-geral de forma cativante. Queremos mesmo tornar este género em algo “brainless”? Só porque é para miúdos?

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2 thoughts on “Uma prisão banal

  1. p7 says:

    Podia dizer que tenho a mesma opinião do livro, mas estaria a parafrasear-te… xD Destacas duas coisas importantes: o livro ter um potencial enorme que não chega a ser atingido, e o perigo de simplificar o género com a abordagem YA, em que a certa altura qualquer treta pode ser considerada steampunk. (E contra mim falo, que o incluí num desafio steampunk. Espero vir a ler coisas mais fiéis ao género do que isto.)

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