Divagações de uma noite de Inverno

Nem sei muito bem como surgiu a ideia para este post, o facto de não ter muito tempo disponível para parar por um bocado irá tornar esta reflexão um pouco confusa. Agradeço aos que ficarão para o fim e não me insultem primeiro. Tudo isto porque estou cansada (mentalmente) de chegar a casa e ver as pessoas lamentarem-se do mundo editorial em Portugal. Pessoalmente costumo queixar-me bastante dos preços dos livros, talvez devido ao facto de achar que todos merecem ter acesso à literatura. Se todos temos uma televisão em casa onde vemos porcaria todo o dia, porque não ter acesso a um livro bom com direito a preço económico? Contudo, a minha indignação não será com o mundo editorial em si, mas para com as pessoas que querem fazer parte dele. Comparemos o nosso mercado editorial com a máfia: é difícil de lá entrar, de ser admitido. Após a primeira vitória temos de nos manter sempre atentos e nunca adormecer. O problema está, julgo, na velocidade estonteante com que as pessoas hoje em dia julgam-se escritoras e julgam-se dignas de ter um livro publicado só porque sim.
Apetece-me. Acordo todos os dias a dizer: vou escrever um livro! Que ideia tão nobre! Porquê? Ora essa, que pergunta mais parva! Quero escrever e depois publicar porque sim! Porquê?Porque gosto de escrever. Ah minha cara, mas uma não implica a outra. Pode escrever para a sua linda gaveta. Que estupidez! Depois não via o meu livro que tanto custou a escrever nas livrarias. Certo, mas porque é que acha que o seu livro deverá ser publicado e não outros? Porque conto uma história que acho que irá agradar a muitas pessoas. Essa história é nova? Não. Traz algo de novo para o mercado? Julgo que não. Então vejamos: escreveu um livro, para publicar, que não traz nada de novo, num género saturado… e está a reclamar que foi recusada porque carga de água?
Atenção: isto é só para algumas pessoas, como sabem isto de ser publicado é, de igual forma, uma roleta russa.
No entanto não consigo deixar de mostrar publicamente a minha frustração quando leio coisas escritas por algumas pessoas cheias de erros, com um estilo de escrita horripilante, de pessoas que nem sabem conjugar verbos e porra! Vêm-se queixar que a editora lhes recusou a sinopse. Bicth, please. Escrever não é só contar uma história bonita. Escrever não é só usar um estilo floreado cheio de palavreado caro. Temos de piscar o olho ao editor. Convence-lo que “este livro é algo de novo em portugal e por isso poderá ser um sucesso de vendas”. Os escritores escusam de pensar que vão ganhar fortunas, mas o livro tem de se vender e tem de ser algo fresco. Algo que não foi ainda apostado. Sejam audazes. Não se deixem ficar debaixo das saias da literatura anglo-saxónica. Custa ver muitos dos autores que escrevem fantasia a falar de Tolkien. Eu adoro o homem, mas porra o homem é mais mencionado que o tremoço. Até há falta de originalidade nas influências.
Ah outra coisa: autores favoritos não é a mesma coisa que influências. O Henry Miller não é o meu autor favorito, mas influenciou-me imenso para escrever cenas eróticas. A Juliet Marillier é uma das minhas autoras favoritas, mas nunca na vida diria que a mulher me influencia. A Annemarie Schwarzenbach é das poucas autoras que é ambos – tanto me influenciou a escrever histórias lésbicas, como é das autoras que leio com mais gosto e prazer.
Voltando ao inicio, fica mal, MUITO mal mesmo (perdão pelo Caps Lock) chorarem por não serem publicados e depois agradecerem e beijarem os pés às vanities que chupam o dinheiro por uma edição de porcaria, que nem revisão tem. Não agradeçam. Não transmitam a ideia de que pagar para publicar é normal, porque não o é. Não transmitam a ideia de que se pagarem, vão ter um livro à venda como se fosse uma editora regular porque não é. Quem entende desta coisa de editoras, lê estas coisas e bate com a cabeça nas paredes, porque dá mesmo ideia das pessoas não saberem o que estão a fazer. “Ai eu fui recusada por muitas editoras e depois mandei para esta que nunca tinha ouvido, mandei o manuscrito e em uma semana estava tudo tratado. Foram muito simpáticos e num instante o livro estava pronto.” Claro, não houve revisão, não propuseram alterações na história, nem nada. Custa ver as pessoas transmitirem esta alegria por terem um livro publicado, nem que seja numa edição rasca que provavelmente não vale o dinheiro.
O que fazer para evitar isto:
1. Se enviar um livro para uma vanity, sabendo que se trata de uma vanity: tudo bem. Desde que não vá enganado a pensar que “ah eu paguei, mas também se tivesse enviado para outras editoras também tinha pago!” – Some people need a high-five, with a table… on their heads.
2. Espere mais um tempo. Pesquise mais sobre os mundo do blogues e seleccione algumas pessoas neutras que nunca a viram mais gorda, a fim de lerem o seu livro ou só a sinopse (a de 2 páginas que se envia à editora). Espere pelo feedback. Se a pessoa em questão lhe propuser alterações, não desanime, isso é um óptimo sinal. Todos podemos melhorar. Lembre-se de uma coisa: a partir do momento em que um livro sai cá para fora está desprotegido. É um livro. Os críticos não querem saber se a autora é um doce de pessoa, se o livro for mau há que o dizer.
3. Não se lamente em entrevistas por ser difícil a publicação. Todos nós sabemos que publicar um livro é uma batalha, mas a sério, dizer que é difícil e depois ler uma sinopse e um excerto pavoroso não ajuda.
4. O facto de o ser livro publicado na vanity com uma edição pavorosa e estar a receber boas críticas (de 5 pessoas que não são suas amigas), não implica que o livro seja bom. Implica que muito pouca gente tem acesso a ele. (Há que ter sempre em conta o dark side of the moon) Peça sempre críticas negativas. Pergunte sempre onde melhorar e porquê! Nunca aceite um porque sim. As melhores críticas antes de publicar o seu livro são aquelas que o fazem pensar. Um bom crítico questiona-se enquanto lê o livro para apreciação, mas depois de este ser publicado há outras questões a serem formadas. Nunca espere palmadas nas costas, algumas acabam por se tornar em facadas.
5. Tente publicar contos. Nem todos escrevemos contos, mas se tentarmos andar pelo meio do fandom ou até qualquer coisa na Internet já é muito bom. Existem alguns fóruns de literatura (e até mesmo das editoras), por isso registe-se, publique um conto e espere por apreciação. Por vezes queremos atirar logo cá para fora um livro e a coisa não corre bem devido à falta de prática ou maturidade estilística.
Lembre-se, o mundo não acabou em 2012, por isso o seu livro terá muito tempo para ser avaliado e publicado. Sorria e continue a escrever.
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About Adeselna Davies

Occasionally works as an English and German teacher, also loves to read all kind of books and wish someone would pay her to read and write reviews forever. She is also a magazine designer and writes short-stories.

7 responses to “Divagações de uma noite de Inverno

  1. O que dizes não deixa de ser verdade, mas por um lado eu até compreendo o desejo que os escritores têm de ver os seus escritos num embrulho especial, chamado livro. Deve ser uma sensação fabulosa e se aceitarem as vanity-press pelo que elas são (quase casas de cópias e NÃO editoras) então não vejo mal nenhum.
    O problema também vem em parte das editoras, muitas das quais nem um simples “não” se dão ao trabalho de dizer, deixando os escritores eternamente à espera de uma resposta que não virá.
    A auto-publicação é na verdade uma escolha de cada escritor e sinceramente não tira o lugar a ninguém. O que é triste é que muita gente vai enganada, pensando que pagar para ser publicado é a regra e não a excepção.

  2. Concordo com tudo o que disseste. Sempre me arrepiou pensar que existem pessoas que pagam para editar um livro (bem, se não tiverem mais nenhum sítio onde gastar o dinheiro…). Mais depressa “publicava” uma versão e-book gratuita, apesar de ter um ou outro senão. É bonito ver o nosso livro numa livraria, mas já não é tão bonito pensar que pagámos 2500 euros por isso (sim, isto foi o que a Chiado Editora me pediu, e eu até me ri ao ler).

  3. Acho que consigo desconfiar de onde veio a ideia… Seja como for, concordo contigo e acredito que muitas das pessoas que agem do modo que referes, eventualmente, também concordarão (se abrirem os olhos…).

    Uma das que mais me irrita é a ideia que algumas dessas pessoas têm que vão ficar ricas com os livros. Gente, nem todos os jogadores de bola ganham balúrdios. Por cada autor que fica rico (regra geral, para isso é preciso um mercado muito maior que o nosso), existem centenas que já lançam as mãos aos céu em agradecimento se conseguirem viver modestamente daquilo que escrevem. Por exemplo, Herman Melville só vendeu 50 livros enquanto era vivo.

  4. Olá, como vi o link vim aqui espreitar, é verdade no que diz. Mas por exemplo há quem queira apenas escrever porque gosta e que quer partilhar com os outros o trabalho que fez, ter criticas boas e más. Falando por mim, tenho três trabalhos feitos, um que partilhava com amigos de confiança num grupo, mas mesmo assim fez me perder a motivação, porque ler através de um PC não e a mesma coisa que ter um livro em si nas mãos. Enriquecer através dos livros? Não sinceramente não, não é por isso que escrevo, se o que escrevo trás algo de novo? Dependendo do ponto de vista, mas provavelmente também não. Nunca enviei trabalho nenhum meu para nenhuma editora, porque simplesmente no meu ponto de vista não estão bons o suficiente (porque para mim mesmo que ate digam que está bom e acho que pode estar melhor, sou a primeira a criticar a mim mesma e a pedir mais de mim), e não tenho € para publicar um livro. Gostaria sim de publicar os meus livros, mas não só porque quero, mas sim porque quero que todos tenham acesso a eles, terem o livro na mão, irem a ler no metro, comboio onde seja, e num computador por exemplo já não e bem assim. E depois não quero apenas que só amigos e conhecidos os leiam. Gostava que todas as pessoas o lessem. Porque quando se faz o trabalho gostamos de partilhar com o mundo o que fizemos, saber se gostaram, se não gostaram e o porquê de não gostarem. Porque para mim, editar um livro é uma coisa séria. Não um “brinquedo” que se faz birra para ser editado, muito menos quando este é mau ate aos ossos. Bem.. é a minha opinião. Ate breve

  5. Estou perplexo, nem sei que dizer desta tua inspiração shakespeariana.

  6. A mistura entre café, alemão e poucas horas de sono dá nisto ;<

  7. Olá! Depois da nossa conversa de comboio, tinha que vir espreitar o texto 😉
    De facto, o sono comeu-te umas vírgulas, mas facilmente consigo ultrapassar isso, tão interessante é o tema!
    Devo concordar contigo em alguns aspectos: Produzir contos e tentar publicá-los ou, pelo menos, divulgá-los, é bastante importante, pois dá-nos alguma credibilidade ao mesmo tempo que nos permite algum feedback por parte dos leitores!
    Também acho importante pedir opiniões a outras pessoas que não nos conhecem e por isso não terão o mais pequeno problema de nos apontar os erros, contudo não podemos tapar os ouvidos, fechar os olhos e gritar a plenos pulmões “LÁLÁLÁ”, não é assim que vamos desenvolver as nossas aptidões… Para elogios temos os nossos amigos, deixemos e aceitemos que quem não nos conhece faça o mais difícil – dizer-nos onde erramos!
    Por fim a publicação… Se de facto acharmos que vale a pena publicar, não devemos desistir da ideia! Acho que nem que tenhamos de traduzir para inglês e publicar primeiro no estrangeiro, não será por isso que devemos baixar os braços e desistir ou pagar uma publicação… lembremo-nos que pagamos para fazer os livros, mas nada vincula as livrarias a vendê-los! O mais provável é sair furado…

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