Dagon 1

Aspecto geral da revista: De início a Dagon parecia um livro, o seu formato A5, capa resistente, folhas amareladas e mais grossas que as de revista. O design é extremamente simples, mas o importante é ler os contos. A verdade é que mal consigo ler os contos na revista da BANG! Demasiadas cores, imagens e os olhos não se focam no texto. Aqui não há distracções. O texto é o principal, as ilustrações ficam à parte. Parece pobre ao início, contudo não paramos de ler a revista porque nada nos distrai. O preço é um pouco caro, não sei se pagaram aos autores/ ilustrador (Miguel Ministro), mas tendo em conta a tiragem de 100 exemplares pensei que iria ficar mais em consideração.

Dormindo com o inimigo:

Luís Filipe Silva


Uma ideia que tem pernas para andar e ser mais desenvolvida. Um cenário pós-apocalíptico onde um homem encontra a ultima mulher à face da Terra e tenta domá-la segundo a sua vontade. A ideia por detrás do conto estão bem apresentadas, mas este tem tanta potencialidade que poucas páginas deixam um sabor amargo no fim. Não sei se o conto teve como inspiração o filme “Sleeping with the enemy” onde a própria personagem masculina é violenta e controladora, contudo penso que o conto podia-se transformar numa noveleta ou num livro pequeno com mais detalhes e (ainda) mais densidade.

A Balada do Executor:

Carla Ribeiro


Uma das coisas que me enerva nas leituras são palavras complicadas. Normalmente a Carla Ribeiro costuma usar diálogos forçados ou palavras/ sinónimos não muito habituais, que nos levam a procurar o significado no dicionário. Felizmente este conto não tem essas falhas. Um pouco previsível, mas a leitura é acessível e a frase final é deliciosa, carregando a catarse. Outra coisa que levou-me a torcer o nariz foi os nomes dados às personagens Scorpio e Sylvanna. Embora não seja tão assustador ter uma vilã chamada Alice ou um homem chamado Nuno, será pedir muito ter nomes portugueses na fantasia?

No Bucks, no buck Roger:

Pedro Ventura


Como não pude deixar de me identificar com este texto. Sendo provavelmente a “escritora” mais desorganizada de sempre (muitas folhas escritas, muitos .docs no computador, muitas notas no Moleskine), nunca consigo passar de umas míseras 20 páginas. Há sempre algo que acontece, a inspiração foge. Os exames, os livros para ler, a vontade que é pouca. Invejo sinceramente as pessoas que conseguem planear um livro e levar esse plano até ao fim. Demoro dois anos a planear uma história, começo com uma ideia e tento passar para o papel. Passados dois meses volta a reler. Odeio. Está horrível! Mudo a história. Três meses mais tarde volto a reler, tive uma ideia nova. Retiro uma personagem, coloco outra. O manuscrito que tinha 10 páginas fica reduzido a metade… Passou-se meio ano e não tenho quase nada. Ao meu lado vejo pessoas a dizerem “Escrevi o meu livro em meses…” e eu só tenho cinco páginas. Desisto. Elimino tudo. Daqui a uma semana tenho outra ideia… e o ciclo repete-se. Não sei se os escritores deviam de ser críticos literários, sei que quando tentamos ser nós próprios os críticos das nossas obras, o resultado final demora muito tempo.

Brasereiros:

Nir Yaniv


Perturbador, magnifico e muito bem escrito (apesar de ser tradução). A revista valeu o preço só por este conto. Uma boa aposta num autor desconhecido ao público português, que prova uma grande competência.

A FC Internacional e Problemas de Identidade

Larry Nolen (tradução de Luís Filipe Silva)


Ando a tentar disciplinar-me para ler mais FC e também Steampunk, especialmente anglo-americana. Como mencionei no último “Booking through Thursday” gostava de ver mais livros de Ficção Científica em português sem ser do João Barreiros. Não tenho nada contra o senhor até porque publico aqui a minha opinião do conto dele e assisti a conferências dele e tive o gosto de participar numa discussão com ele. Contudo a falta de nomes mais jovens nas prateleiras é bastante incomodativo. Especialmente quando se vê uma prateleira da FNAC cheia de Sherryln Kenyon (cujas capas têm homens todos bons para aquelas mulheres que obviamente têm um neurónio a menos) e livros “copy/paste” que enjoa. Fico a pensar que uma prateleira tão grande podia ter pelo menos cinco livrinhos portugueses de Ficção Científica.

Um dia com Júlia na Necrosfera (parte I)

João Barreiros


Primeiro comentário: finalmente nomes portugueses num conto de FC/ Fantasia.
Segundo comentário: escrita muito atenta, agarra o leitor, deixa-o a salivar por mais e depois vem a crueldade de um conto – acaba! A segunda parte é prometida ao 2º número da Dagon.
Terceiro comentário: A excelente caracterização da personagem de Júlia e do ambiente podre, sujo e infernal em seu redor. Tudo o que é descrito, mesmo sem grandes detalhes, o leitor consegue imaginar na perfeição. A prosa de João Barreiros neste conto faz com que FC até pareça fácil de escrever, é tudo tão simples e ao mesmo tempo tão complexo.
Em suma a Dagon1 vale a pena ser adquirida (aliás penso que ainda têm alguns exemplares disponíveis – o meu foi 8€ e não paguei portes) pelo menos pelos contos do João Barreiros, Nir Yasiv e a reflexão do Pedro Ventura.
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