Nada do que eu possuo tem realmente valor…

The dispossessed

(An ambiguous Utopia)
Ursula Le Guin
Colecção SF Masterworks
Páginas 336

Em 1974 dá-se em Portugal a Revolução de Abril em 25 de Abril, em 1974 foi publicado “The dispossessed” por Ursula Le Guin, que ganhou um ano depois da sua publicação, o Prémio Nebula e o Hugo. Com todo o atrevimento julgo que a obra apresenta-se como Ficção Científica, sem que o leitor note que está a ler FC com todos os clichés tradicionais de lulas com capacetes espaciais.
“The dispossessed” é real, podia ser real… se mudássemos alguns nomes seria bastante real. Embora o título já refira alguma densidade quando refere “an ambiguous utopia”, o leitor, na sua posição frágil, é levado pelos olhos de Shevek por dois mundos ambíguos e divergentes. Anarres e Urras são os dois planetas, que se diferenciam na política, economia e sociedade. Anarres, casa dos despojados, mergulhada na anarquia, que valoriza claramente a cooperação e a comunidade. Apesar de tudo o planeta de Shevek é feio, deserto e o povo luta para sobreviver mais um dia. Por outro lado Urras é um planeta belo, fértil onde persiste um regime repressivo, onde tudo é controlado pelo Estado. A sociedade de Urras é claramente capitalista, rica e que por isso o povo não chega ao sofrimento dos de Anarres.
A história é desenrolada através dos pensamentos, memórias e acontecimentos de Shevek, um cientista brilhante, que sofre nas mãos destes dois planetas: a sua casa está claramente desinteressada no seu trabalho e o governo de Urras só quer a sua fórmula para criar mais guerra e riqueza. A crítica tem referido a Guerra Fria como principal fonte de inspiração para a crítica nos dois mundos, contudo penso que sem esta ponte o livro continua actual e um objecto simples para a reflexão.
O que mais me fascinou foi, para variar, a maneira como Le Guin, uma mulher extremamente humana, consegue defender ideais feministas, sem cair no extremismo. Quando Shevek entra em contacto com Urras e observa a sua sociedade, não deixa de verificar que as mulheres são submissas, usam bastantes adornos e não trabalham. Isto causa estranheza em Shevek, devido ao facto de as mulheres em Anarres estudarem física e outras ciências e exercerem as mesmas profissões que os homens. Lembrem-se que nos anos 70 os Estudos Feministas e de Género estavam a entrar em ebulição e de facto Le Guin foi das principais autoras da Segunda Vaga feminista. O livro defende acima de tudo a igualdade de oportunidade de emprego tanto para homens como mulheres, o direito que as mulheres têm de não usarem adornos para ficarem “mais bonitas” para os homens, a homossexualidade/ bissexualidade deve ser aceite tal como a heterossexualidade e até mesmo o celibato e por fim também importante os homens devem participar no processo de crescimento dos filhos, já que tanto os homens como as mulheres têm capacidade para cuidar das crianças. Foram estes pontos que contribuíram para o reforço do fascínio que se criou, quando li “The left hand of darkness”.
O livro em Portugal encontra-se publicado pela Europa-América, dividido em dois volumes e já está na minha opinião a pedir por uma reedição de maior qualidade, porque de facto o livro merece estar nas prateleiras, acessível ao público geral.
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About Adeselna Davies

Occasionally works as an English and German teacher, also loves to read all kind of books and wish someone would pay her to read and write reviews forever. She is also a magazine designer and writes short-stories.

2 responses to “Nada do que eu possuo tem realmente valor…

  1. “Com todo o atrevimento julgo que a obra apresenta-se como Ficção Científica, sem que o leitor note que está a ler FC com todos os clichés tradicionais de lulas com capacetes espaciais.”

    Bom dia ! Esse cliché não corresponde à maioria dos livros de FC… apenas a séries de naves espaciais, que na verdade são um subgénero da FC.
    The Dispossessed é um clássico do género… mas tens muitos outros excelentes, sem lulas nem capacetes. The Left Hand of Darkness é outro da mesma autora, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, The Child Garden de Geoff Ryman… Estes são apenas alguns que se podem enquadrar nas distopias… 🙂

  2. Era a gozar com a Margaret Atwood :p Quando ela disse que FC eram lulas a falarem algures no espaço ou qualquer coisa assim 🙂 Eu também li o “The left hand of darkness”, se notares demorei-me mais na parte de género do livro e menos a dissecar os traços de FC.

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