Um jogo vazio

Game of Thrones

A song of Fire and Ice 1
George R. R. Martin
Editora: Bantam
Páginas: 720

Na minha curta vida literária (5 anos) ainda me apetece dar-me um bom par de bofetadas por acreditar em publicidade e gloriosas promessas. O problema de ler várias críticas é que se cria demasiadas expectativas que podem sair muitas vezes furadas. Pessoalmente gosto de ler um livro que me faça reflectir sobre vários assuntos ou então um livro que descreva sentimentos e tenha um ritmo próprio.
Das 670 páginas que constituem o “A Game of Thrones” o que mais irrita é a estrutura interna da obra. Dividida por capítulos dos quais cada personagem nos conta um bocado da história, há que detestar a palha e os fillers. Quando a história da Danny estava emocionante e a cativar-me para ler mais, eis que tinha que ler mais 5 capítulos com a Catelyn, Tyrion, Jon etc até chegar à continuação da história da rapariga. Compreendo a necessidade de dividir a obra desta maneira, já que consegue-se equilibrar a atenção dada a cada personagem, contudo o ritmo da obra fica quebrado. O facto de se ter optado pelo narrador heterodiegético compõe outro problema. Não só a narração é mais fácil de ser seguida – em vez de “I” temos “Catelyn” ou “Ned”, mas também não pede qualquer esforço ao leitor para saber quem está a falar. Problema nº 2: toda a narração é desprovida de sentimentos (tirando a narração da Danny e por vezes da Sansa). O meu problema com os narradores heterodiegéticos é o facto de afastarem por vezes o leitor sem se aperceberem. Não é que precisamos de nos identificarmos com as personagens, tal coisa é muitas vezes impossível, contudo parece que muitas vezes despejam-se acontecimentos e ficamos perdidos em coisas que aconteceram mas não são descritas.
Outro problema em relação às personagens é o facto de serem estereotipadas: Eddard o nobre senhor cheio de valores e princípios, sempre cheio de razão; Sansa a miúda fútil que só quer ser rainha; Arya a Maria-rapaz que não gosta de bordar e prefere manejar uma espada; a rainha que é má e corrupta etc. Apenas Danny e Jon Snow apresentam apresentam uma evolução (e no fim Sansa também se encontra numa espécie de limbo) e penso que Danny é a mais humana de todos – reflecte, faz erros – sofre as consequências.
Dentro das personagens (e isto perdoem-me mas tem de ser dito) a maneira como as personagens femininas são tratadas. Irrita-me profundamente que em pleno século XX ainda se coloque a mulher submissa e oca como normal, enquanto a mulher que quer pegar numa espada é algo diferente. Se “Game of Thrones” fosse um romance histórico respeitava essa decisão, agora o mundo de Martin não é o nosso mundo, nem tem a nossa História, daí que o autor tem poder para mexer nas leis. Apesar disso reinam as “dark ages” e só Danny e Arya safam-se deste perigo. O próprio facto de o sexo ser de costas faz eclodir este tratamento pobre face às mulheres. Submissa, de joelhos sem revelar a sua cara e sem revelar a sua tristeza – é mais fácil de facto fornicar uma mulher sem saber o que ela está a sentir, ao passo que de frente os homens seriam obrigados a ver as expressões das mulheres. Esta tendência muda a meio do livro, o que me faz crer que com o tempo o autor ficou mais sensível a muitos erros que cometeu nas 400 páginas anteriores.
Em suma “Game of Thrones” não é um mau livro, simplesmente não é tão bom quanto o pintam, ou seja, considero-o sobrevalorizado. Apresenta falhas, que certamente serão colmatadas à medida que o autor também começa a liderar a história para o caminho que pretende. No fim encarei este primeiro volume como isso mesmo – o primeiro, a introdução para no futuro relembrá-lo como “tudo isto começou aqui”.
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One thought on “Um jogo vazio

  1. Cat SaDiablo says:

    Meu deus, não acredito que estamos a falar do mesmo livro 🙂
    Percebo muitos dos teus pontos de vista. Quantas vezes dei por mim frustrada na leitura porque quando estava a querer saber mais sobre o que acontecia a dada personagem, o capítulo dela acabava e pimbas! Só daqui a 3 ou 4 é que sei o que lhe acontece.
    Em relação à maneira como as mulheres são tratadas, é claro que o mundo de Martin não é o nosso, mas é obviamente uma idade média como a que tivemos, mas com dragões nos ares e estações que duram anos. Em praticamente tudo o resto poderíamos estar a descrever a Europa da idade média. Portanto essas descrições da condição da mulher não poderiam ser de outra forma, sob pena de correrem o risco de serem vistos como elementos de contos de fadas. Estamos no séc. XXI, mas a história passar-se-ia no XI ou coisa que valha.

    Em relação às personagens estereotipadas, não posso discordar mais. A criação das personagens é precisamente o ponto forte do autor. Nenhuma destas personagens é preta ou branca. São todas cinzentas, até o honroso Ned Stark ou o canalha Jaime Lannister. Nenhuma personagem é estanque e todas, mas mesmo todas, vão fazer algo ao longo da série que nos vai surpreender. De facto a mais básica pode até ser a Sansa, neste primeiro livro, mas coitada, ela não tem cérebro, só que ser uma princesa 😛
    O facto de cada capítulo mudar o narrador é para mim uma mais valia. Adorei sentir que a maneira como a prosa é diferente de personagem para personagem. Podíamos não ler o nome do capítulo e ser capaz de adivinhar a personagem em foco.
    E foi principalmente por esta razão que fiquei imediatamente agarrada a esta saga. Mas as expectativas podem ser uma coisa péssima, no que aos livros diz respeito.
    Por fim, só queria dizer que tenho pena que não tenhas gostado, e sugerir que continuasses a saga, porque este primeiro livro é como disseste, apenas o início 😉

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