O Evangelho do Enforcado

O Evangelho do Enforcado
David Soares

Editora: Saída de Emergência
Colecção: Bang!
Páginas: 368
Sinopse: Nuno Gonçalves, nascido com um dom quase sobrenatural para a pintura, desvia-se dos ensinamentos do mestre flamengo Jan Van Eyck quando perigosas obsessões tomam conta de si. Ao mesmo tempo, na sequência de uma cruzada falhada contra a cidade de Tânger, o Infante D. Henrique deixa para trás o seu irmão D. Fernando, um acto polémico que dividirá a nobreza e inspirará o regente D. Pedro a conceber uma obra única. E que melhor artista para a pintar que Nuno Gonçalves, estrela emergente no círculo artístico da corte? Mas o pintor louco tem outras intenções, e o quadro que sairá das suas mãos manchadas de sangue irá mudar o futuro de Portugal.
Primeiro quero só referir que não sou facilmente impressionável. Nada me choca. Podem descrever a situação mais macabra que muito sinceramente não vou ficar impressionada ou pensar “ew que nojo”. Por conseguinte e ao contrário de outras críticas/ opiniões que li, não fiquei chocada, mas enfadada. David Soares pinta um Nuno Gonçalves, claramente psicopata, filho do Diabo com um gosto especial por cadáveres e sangue. O pintor é a personagem menos verosímil. Não tem pontos positivos no seu carácter, é simplesmente alguém que quer subir na vida e que acaba por se tornar um assassino. Aqui a história descamba. O autor inunda a personagem histórica de Nuno Gonçalves com os seus próprios gostos e introduz vertente de terror para chocar o leitor. No entanto poderia aproveitar as escassas informações de sua vida para criar uma personagem na qual podíamos sentir alguma empatia. No fim o que fica de Nuno Gonçalves é nada. Quem foi ele? Um louco que matou duas prostituas e um chulo, que só a meio do livro pinta os painéis de São Vicente. A personagem secundária oscila como Nuno – o infante Henrique é apresentado como um homossexual sem escrúpulos e também com um pouco de loucura. O livro lê-se bem e de facto nota-se que a prosa de David Soares pode ser agradável quando este não se esforça para querer chocar em situações completamente descabidas. Penso que o “O evangelho do enforcado” não é o melhor livro para ver o talento de Soares, é demasiado pessoal e nota-se o esforço para chocar ou para ser profundo, inundando o leitor com imensa simbologia e citações de outros livros, fórmulas cujo leitor normal não entende e frases em latim sem tradução. Sou apologista de que com coisas simples fazem-se grandes livros, penso que este só tem uma palavra para o descrever: exagero. Os simbolos são exagerados, as frases em latim demasiadas, demasiado gore, demasiado uso do calão e descrições de sexo homossexual “cruas”. Lamento verdadeiramente não ter apreciado o livro, mas penso que este livro deve satisfazer apenas um grupo bastante restrito de pessoas. David Soares escreveu uma vez que não devemos tratar os leitores como idiotas (pessoalmente concordo a 100%), contudo esta obra é a prova que Soares trata os leitores como génios que tudo vão entender. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
Citações do livro:
“O rapaz da faca manteve a lâmina junto ao pescoço da rapariga enquanto a violava.
“Tu és, tu és…” gaguejou ele. “Tu és…”
Apressou os movimentos. Às tantos, suspirou e, agarrou o pé inútil, ejaculou sobre a deformidade. Riu. O sémen resvalou pelo calcanhar e pingou para o chão; batendo com a glande no peito do pé, o rapaz sacudiu o que sobejava. (…) No exterior Nuno concentrou a sua atenção nas pernas abertas da rapariga; à claridade que entrava pelo postigo, viu os sémens dos mancebos a fluírem para fora e ambicionou ser capaz de fazer como eles. (…) Viu a rapariga pousar um braço sobre a testa e imobilizar-se. Percebeu, de imediato, o que é que precisava. «O cheiro a mortos.»
Precisava de fingir que ela estava morta. ” (45)

“A maioria das mulheres que vendiam os corpos na Putaria, em quartos cheios de trates, não comiam fruta ou sentia o cheiro de flores; em certas ocasiões deitavam a unha a uns pedaços podres de carne, roubados à lixeira vizinha. Ao contrário dos mouros, as prostitutas não tinham nenhum pudor em beber: muitas já nem tinham dentes e o vinho escorregava sem dar trabalho. «Cum se cutis arida laxat, fiunt obscuri dentes.»” (77)

“Os animais pularam em volta da rapariga, puxando-lhe as roupascom as dentuças afiadas; ela arranhou o chão com as unhas, tentando fugir, mas os cães pareciam estar em todo o lado.

Δ x Δ p ≥ 1/2 ħ


“É uma gaja, não é?”, perguntou Júlia, confundida pelas sombras e pela chuva.” (165)


“Boa noite” disse Veríssimo.
“Boa noite”, respondeu o homem.
“Queres…” Veríssimo vacilou. “Queres ir-me ao cu?”
O homem não disse nada.” (259)


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One thought on “O Evangelho do Enforcado

  1. Ana C. Nunes says:

    Se a história em si já não me cativava nada, então estes excertos menos ainda. Não é tanto a “crueza” mas a forma como ele escreve. Não sou fã, confesso, e já tinha notado isso no único conto que li dele.

    Gostei muito da tua opinião. Directa, concisa e sem “paninhos quentes”. Não podem gostar todos do mesmo, certo?

    P.S.: Sempre que entro no teu site aparece-me uma caixa a dizer qualquer coisa do twitter, e lamento dizer que é um pouco irritante. Não sei se é propositado, mas aconselhava-te a reveres isso porque chega a ser um entrave quando se passeia pelo blog.

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