O ano da morte de Ricardo Reis

O ano da morte de Ricardo Reis
José Saramago
Editora: Caminho
Páginas: 408
Colecção: Obras de Saramago

Não sendo propriamente uma estreante na prosa de Saramago, afirmo firmemente que “O ano da morte de Ricardo Reis” é um dos melhores livros que já tive o prazer de ler. Saramago não desilude perante a árdua tarefa de dar vida a uma criação do supra-Camões: Fernando Pessoa. È preciso separar a fantasia da realidade, pegar na personagem e misturar através de sítios e outras marcas de realidade, uma história coesa. Se a narrativa fosse somente coesa, duvidaria que se trataria de um Saramago, por isso sem querer adiar as provas da sua genialidade a primeira frase do romance “aqui acaba o mar e a terra principia”, alusão ao canto terceiro, estrofe vigésima da epopeia “Os Lusíadas”:

“Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floresça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora, e lá na ardente
África estar quieto o não consente.”
A primeira frase do romance aliada ao título resulta numa das primeiras dúvidas para descortinar mais sobre a personagem de Ricardo Reis. Se o título aponta para a morte não sabemos se é física ou apenas simbólica. De salientar que até a figura principal, ao contrário de Fernando Pessoa nunca existiu. Assim podemos primeiramente especular sobre os verbos “acabar” e “principiar” como uma metáfora da própria existência.
O ciclo da existência pressupõe sempre um início e um fim, nascimento e morte associada à imagem da água, símbolo da vida em contraste com a terra, que pode ser encarada como um sítio subterrâneo (Inferno). Se a morte de Ricardo Reis fora somente espiritual e simbólica, podemos aliar os dois elementos: mar (travessia para o além) e terra – Europa (Inferno). A chuva e o mau tempo que se fazem sentir durante a estadia de Ricardo Reis em Portugal é, de igual forma, um espelho do estado de uma Europa totalitarista. “Tem chovido muito, perguntou o passageiro, É um dilúvio, há dois meses que o céu anda a desfazer-se em agua, respondeu o motorista, e desligou o limpa-vidros.” (17) O Hotel Bragança é um ponto onde o tempo aparece ritmado, ao contrário do apartamento que Ricardo Reis aluga mais tarde. Temos a noção do tempo a passar através do relógio na sala, ao invés do apartamento, onde Ricardo Reis dorme até ao meio-dia e perde-se no tempo. O dia-a-dia no hotel contribui para a veracidade da ficção e é preciso separar a criação do criador através da visita ao cemitério.
O narrador brinca com a ficção e a realidade com o livro “The God of labyrinth” de Hebert Quin não é nada mais do que um conto de Jorge Luis Borges (e aqui temos um caso de um livro dentro de outro livro). Esta alusão a um “deus labiríntico” que no fundo de labirinto não tem nada tem basicamente a função de ajudar o leitor a situar-se na psicologia de Ricardo Reis e as suas questões. O labirinto (também típico de Kafka e Dürrenmatt) não é um labirinto físico mas sim espiritual. O tema da morte presente em bastantes obras de Saramago, consegue nestas páginas apresentar quatro mortes diferentes: morte física de Fernando Pessoa, a morte do braço de Marcenda, a morte espiritual de Ricardo Reis e por último a duvida se Lídia sempre realizará um aborto após a morte do pai da criança. Saramago pega na musa inspiradora de Ricardo Reis e dá-lhe vida num corpo de uma empregada de limpezas que trabalha no hotel Bragança. Ao contrário do amor existente em “Memorial do Convento” e “Evangelho segundo Jesus Cristo” Lídia e Ricardo Reis terão uma relação puramente sexual, esquecendo os poemas mais platónicos:

“Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)”

Nada na relação entre eles sugere esta pacatez de espírito, muito pelo contrário. Ricardo reis surge como um predador e Lídia com uma presa, na qual na sua qualidade de empregada não poderá resistir, sem ceder às vontades do “senhor doutor”. Curiosa a escolha de Saramago pela profissão de Lídia, uma mulher do povo, mas que sem querer consegue proferir opiniões de uma forma encantada. Assim Saramago consegue mostrar mais uma vez que o povo tem uma certa magia: “Fica sabendo, Lídia, que o povo nunca está de um lado só, além disso, faz-me o favor de me dizeres o que é o povo, O povo é isto que eu sou, uma criada de servir que tem um irmão revolucionário e se deita com um senhor doutor contrário às revoluções.”(375) Apesar de ter um irmão revolucionário, Lídia várias vezes prefere simplesmente revelar a sua ignorância através da desculpa da sua pobre escolaridade, o que torna o romance entre os dois ainda mais apetecível. Ricardo Reis, o grande poeta, um sr. Doutor, deitado na sua cama com uma criada quase analfabeta. Talvez por isso Saramago achou por bem criar uma outra personagem: Marcenda, mais ao gosto do próprio Ricardo Reis.
Marcenda representa um desafio à profissão do doutor, com um braço paralisado e sem cura possível. Ambos parecem viver em função daquele braço paralisado: Marcenda desespera com a demora da cura e Ricardo Reis tenta encontrar a cura através da psicologia. “A esta mesma hora, naquele segundo andar da Rua de Santa Catarina, Ricardo Reis tenta escrever um poema a Marcenda, para que amanhã não se diga que Marcenda passou em vão, Saudoso já deste verão que vejo, lágrimas para as flores dele emprego na lembrança invertida de quando hei-de perdê-las, esta ficará sendo a primeira parte da ode, até aqui ninguém adivinharia de que Marcenda se vai falar, embora se saiba que muitas vezes começamos a falar de horizonte porque é o mais curto caminho para chegar ao coração.” O poema “Saudoso Verão que vejo” demonstra como ambas: Lídia e Marcenda ocupam um espaço importante na poesia do heterónimo. Ao contrário de Lídia a relação entre Marcenda e Ricardo Reis é mais platónico.
“Marcenda herself, too, is physically imperfect, with a withered arm that leaves her effectively one-handed, like Baltasar; and she hails from Coimbra, the city of the priest Bartolomeu Gusmão. Lídia, the barely literate hotel chambermaid, recalls the illiterate Blimunda in her poised yet daring vivacity. At certain moments in the text, the narrator recalls other elements from Memorial do Convento: the convent of Mafra (p. 401), the flying machine of the inventor-priest (p. 670). “Literature as History: José Saramago’s O Ano da Morte de Ricardo Reis”, Chris Rollason
Saramago prova que mesmo uma mulher de alta classe terá os problemas de uma pessoa do povo.
Em suma, “O ano da morte de Ricardo Reis” é um livro onde o génio de Saramago pode ser confirmado através das intertextualidades cuidadosamente expostas e dos locais reais de Lisboa, onde o leitor pode seguir Ricardo Reis como se estivesse a seu lado. As marcas de realidade: jornais e os locais ajudam à exactidão da prosa. Não é um livro fácil de ler, bastante denso e metafórico o leitor conclui a leitura com tristeza, com uma ânsia de querer mais, no entanto não há nada mais real que a morte e a certeza de que todos vamos morrer um dia.
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