Sputnik, meu amor

Sputknik, meu amor
Haruki Murakami
Colecção: Biblioteca Sábado
Páginas: 200
Tradutora: Maria João Lourenço

Existem sempre uma parcela de livros que apesar de não entendermos metade do que o autor quer dizer, sentimos que as páginas que lemos transportam algum valor. Com “Sputnik, meu amor” apesar de muitos leitores não entenderem tudo, reconhecem que não podem ficar indiferentes ao que leram. “Sputnik, meu amor” conta a história de Sumire (violeta em japonês), que ambiciona ser escritora e que encontra Miu, por acaso num casamento onde ambas entram em conflito por causa de um mal entendido. Miu confunde o movimento Sputnik com Beatnik, o que as leva a estabelecer desde cedo um elo, que só se irá quebrar quando Sumire desaparecer na ilha grega… ou não. Haruki Murakami apresenta um romance complexo, genial e que nos transporta até ao outro lado da realidade, um “outro lado” onde pairam as nossas paixões. Sumire quando conhece Miu e aceita o emprego, começa a mudar aos poucos até que deixa de escrever. Miu sofre um trauma quando tem vinte e cinco anos que a impede de ter desejo sexual por Sumire e por fim K. deixa de ser a pessoa que era devido ao desaparecimento do seu amor Sumire. Indirectamente Murakami consegue pegar nas personagens e atribuir-lhes uma espécie de ciclo que todos sofremos: a paixão pela escrita, pela música, ou por uma pessoa terá de ser substituída pela dura realidade. Sumire não ganhará dinheiro com os seus livros, Miu tem de gerir o negócio do pai e K. terá de viver a sua vida sem Sumire a telefonar-lhe a meio da noite. O nosso mundo é feito de pequenas tragédias quotidianas, de desistências de sonhos. “Sputnik, meu amor” lida com duas desistências: a primeira relacionada com a escrita e a segunda com a sua homossexualidade. Sumire terá de abdicar daquilo que é e sempre foi em prole da sua paixão por Miu, mas quando Miu revela não conseguir sentir qualquer deseja sexual, Sumire evapora-se. Se Miu sofreu um trauma (violação) que a fez mudar de uma mulher viva para uma concha vazia, quando Sumire se apercebe que não conseguirá alcançar o que quer com a mulher que ama, uma parte de si foge da realidade para um mundo onde Miu consegue ter algum desejo sexual.

“E assim prosseguimos com as nossas vidas, cada um para o seu lado. Por mais profunda e fatal que seja a perda, por mais importante que seja aquilo que a vida nos roubou – arrebatando-o das nossas mãos -, e ainda que nos tenhamos convertido em pessoas completamente diferentes, conservando apenas a mesma fina camada exterior de pele, apesar de tudo isso continuamos a viver as nossas vidas, assim em silêncio, estendendo a mão para chegar ao fio dos dias que nos coube em sorte, para logo o deixarmos irremediavelmente para trás.” (194)

Um livro tocante na sua complexidão.
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