As Brumas de Avalon I

As Brumas de Avalon I

A Senhora da Magia
Original: Mist of Avalon
Marion Zimmer Bradley
Editora: Difel
Páginas: 320
Preço: 17€00
Tradutora: Maria Dulce Teles de Menezes

Um livro excelente, inspirador e acima de tudo um marco na literatura feminista “As brumas de Avalon: A senhora da magia” consegue dar voz a personagens femininas como poucas escritoras fizeram. Marion Zimmer Bradley conjura a partir da lenda do rei Artur uma narrativa centrada em duas partes: a primeira metade foca na vida da condessa da Cornualha Igraine, uma mulher que há pouco tempo atingira a vida adulta e já se encontra com uma filha nos braços de um conde velho que não ama. A segunda metade é marcada pela vida de Morgaine em Avalon e os seus ensinamentos para se tornar uma sacerdotisa. As personagens masculinas têm um papel ainda demasiado importante na narrativa, como o de Gorlois (um homem rude, retrógrado), Uther (o pai de Artur, Rei Supremo, forte mas ao mesmo tempo apaixonado e fraco por Igraine) e por fim Arthur (um rei bonito ainda que um pouco ambíguo). Parece que neste primeiro volume Marion Zimmer Bradley ainda jogou pelo seguro e não se atreveu a levar as personagens a um extremo feminista, apesar da personagem Gorlois consegue suscitar muitas vezes raiva e nojo, enquanto a personagem de Arthur está construída de modo a que aos olhos do leitor este rei seja, para já, um rei bondoso e acima de tudo tolerante.

Apesar de ser cotado como um romance de fantasia, arriscaria a defender que Avalon não é um romance de fantasia, mas sim para já uma utopia feminista. Existe um contraste estabelecido não só entre a religião de Avalon e a Cristã, mas também na sociedade em si. Enquanto na religião Cristã a mulher tem um papel redutor, o de mãe  esposa ou então se não for mãe terá obrigatoriamente de ser virgem; em Avalon a mulher tem uma função que não aprende só a fiar e bordar, mas artes úteis como arte de curar, prever o futuro próximo. Em Avalon a virgindade e a gravidez tem uma conotação positiva, é um orgulho trazer uma criança no ventre, mesmo que a mãe tenha pais diferentes. Embora a virgindade quase sempre seja perdida por um homem, que não seja o verdadeiro amor, não é a perda que tem um maior peso, mas sim o que vem depois. Na verdade o papel do pai é mesmo só o de progenitor, visto que a maioria dos homens andavam na guerra a lutar e a casa era deixada para as mulheres. Avalon é o sítio onde as mulheres conseguem viver livres de morais restritas e sem sentido para conseguirem alterar o mundo terreno para um mundo melhor, mais próximo de Avalon do que do mundo Romano regido por Homens. Enquanto na moral Cristã o incesto, a “bruxaria”, o adultério é visto como pecado sem perdão, em Avalon o incesto e o adultério podem simbolizar paz para um país em constante guerra. Quebrar as barreiras, dar mais voz à mulher abordando temas controversos como o direito ao aborto e o dever estereotipado da mulher (casar/ ter filhos) com a própria vontade (cometer adultério em nome do amor sem ser julgada/ abortar de livre vontade) consegue-se sentir nas veias o grito que Marion Zimmer Bradley em 1982 soltou ao escrever esta história.
Fica, contudo, a expectativa do segundo volume a autora ir mais longe nesta linha feminista e chegar ao extremo de diminuir cada vez mais o poder dos homens e aumentar o das mulheres.

Citações importantes:

(Igraine) “Como é que se atreve a chamar-me esses nomes, quando me carregou de presentes como se eu fosse uma dessas mulheres fáceis que andam atrás dos exércitos? Se pensa que sou uma prostituta, onde é que estão os presentes que recebi dos meus amantes? Todas as prendas que tenho foram-me dadas pelo meu marido, o impotente filho da puta de língua suja que tenta comprar a minha boa vontade para a sua luxúria porque os padres o tornaram meio eunuco!”

(Morgaine) “Mas o que é que uma virgem pode saber da labuta e dos sofrimentos da humanidade?”

(Arthur) “Foste a primeira. Por muitas mulheres que possa vir a ter, durante toda a minha vida lembrar-me-ei sempre de ti e amar-te-ei e abençoar-te-ei. Juro-te.”

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About Adeselna Davies

Occasionally works as an English and German teacher, also loves to read all kind of books and wish someone would pay her to read and write reviews forever. She is also a magazine designer and writes short-stories.

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