O leitor

Der Vorleser

Bernhard Schlink

Editora: Diogenes Verlag

Páginas: 206
Preço: 7€35

Existem livros que nos marcam, uns porque nos identificamos com as personagens, outros porque trazem-nos memórias e existem outros que são simplesmente obras-primas tão bem elaboradas, que mesmo não vivendo as situações descritas, o leitor é levado pela corrente de palavras e situações sem se conseguir libertar. “Der Vorleser” é o que eu consideraria um “page-turner” inteligente. “Page-turner” devido ao seu enredo viciante, pseudo-policial e inteligente porque é preciso um “background”, digamos assim, histórico e cultural para entender o cerne da questão.
Michael Berg é um estudante de quinze anos perfeitamente normal, que quando teve icterícia fora ajudado por uma mulher estranha. Esta mulher, misteriosa e mais velha que ele (trinta e seis anos) é uma simples revisora de eléctrico, bastante inteligente, com uma personalidade cativante e autoritária. Michael Berg não passa de um simples estudante, que não tem nada de brilhante. Mas ambos apaixonam-se, Michael por a mulher se sensivelmente mais velha e ter um ar sedutor natural; enquanto que a mulher adora ouvi-lo ler em voz alta no banho. Porém a paixão entre Michael e Hanna poderá ser entendido como um “plot secundário” para a verdadeira questão do romance: a vergonha.
Spoilers Alert:


A vergonha em “Der Vorleser”:
O livro é composto por três partes: a primeira foca a relação entre Michael e Hanna; a segunda parte gira em torno do julgamento de Hanna e a terceira será talvez as consequências que o julgamento trouxe para o narrador e para a mulher. A sentença dada pelo tribunal a Hanna pelo seu passado no campo de concentração como guarda apresenta um lado moral e um lado mais policial. Na relação com Michael, este confessa sentir várias vezes vergonha quando o casal discute, sendo o homem quem cede sempre. De certa maneira Hanna representa o Passado, o Nazismo que já acabou, mas que continua sempre presente na memória das pessoas. Anos após a fuga de Hanna, Michael não a consegue esquecer, lembrando-se quase de apenas fotografias da sua ex-amante em várias posições. A memória funciona como uma espécie de lição. Temos de nos lembrar dos horrores do Holocausto para podermos aprender com os erros do passado. Mas “Der Vorleser” lida não só com este passado, como também com a vergonha que esta geração teve de lidar. Também na Primeira Guerra Mundial os filhos culpavam os pais da guerra e aqui Michael é obrigado a condenar o pai, mesmo sabendo que ele não teve culpa nenhuma das atrocidades e pior, também ele fora injustiçado durante o Nazismo. Existe a vergonha do passado e também a confusão do lidar com o mesmo. Como reage a geração pós-Holocausto? Que rumo deverão estes jovens tomar, quando a inocência do mundo está em falta? A vida nunca fora a mesma pós-Auschwitz e nem poderia ser. Em vez de ignorar este período terrível da história da Humanidade. Schlink convida-nos a fotografar as imagens para recordarmos sempre o que aconteceu.
Por outro lado já referi as marcas de romance policial, embora seja só uma percentagem muito pequena. Mesmo assim temos: um crime, um(a) culpado(a) e uma sentença. Não temos motivo. Hanna e outras mulheres são acusadas de negligência, por terem deixado centenas de prisioneiras morrer no campo de concentração quando, segundo os advogados, as senhoras teriam a chave para impedir a tragédia. Schlink constrói um enredo inicial emocional à volta da figura de Hanna, uma mulher capaz de amar, mesmo com a sua personalidade brusca, e depois julga-a como criminosa, numa teia sem motivos ou verdadeira culpa. Quem não seguia o que o regime ditava era obviamente preso e mandado para os campos de concentração. E neste clima nocivo para a sociedade e para um país, onde todos tiveram culpa, ou porque participavam nas acções ou porque simplesmente ignoravam o que se estava a passar, Schlink fornece esta personagem para questionar também um pouco a justiça. O Tribunal não sabe que Hanna é analfabeta, algo crucial para a sua sentença. O juiz tem de julgar Hanna sem conhecer alguns factos. Sendo Hanna analfabeta e uma mulher, cuja pensamento critico é nulo, como poderia esta mulher ir contra o Nazismo? Como poderia o povo alemão ir contra algo que era superior a eles? E nós leitores que não somos juízes, mas sabemos algo que eles não. O leitor é agraciado com o segredo que poderá salvar a vida de Hanna. Mas não é só a vida de Hanna que está em jogo, mas sim a dignidade manchada de uma mulher, cujo Passado a persegue. Portanto em “Der Vorleser” o romance policial não tem uma estrutura “clássica”, mas sim laivos que levam o leitor a pensar na Justiça.
Fim de Spoiler
Devo confessar que adorei o livro (ainda não vi o filme), mas vou de certeza ler mais sobre esta belíssima obra de Schlink e devo dizer que é um livro que não pode deixar nenhum leitor indiferente.

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