Livros que me marcaram: Moon Palace

Moon Palace

Paul Auster
Editora: Faber and Faber
Páginas: 320
Preço: 8€47 (sujeito a alteração)

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS
Sendo Marco Fogg órfão de pai e mais tarde de mãe, a única figura paterna está presente na imagem do Uncle Victor. Julgando o pai morto, Fogg tenta procurar a identidade do seu pai para reforçar a sua. Com a misteriosa morte do Uncle Victor anunciada pelo sargento Neil Armstrong (paródia ao astronauta), em vez de preencher os espaços em branco da sua vida, Fogg inicia um processo de esvaziamento e de desfragmentação. As luzes neon das letras do restaurante chinês “Moon Palace” são equiparadas aos olhos de Deus, parecendo dar algum alento à sensação de vazio. No entanto Fogg ao não conseguir superar o grau 0 da existência, não consegue tirar partido das possibilidades mágicas do neon. Ao ser despejado do apartamento, o senhorio Simon Fernandez compara o seu quarto a um caixão revelando o grau de desalento a que Fogg chegou. O espaço adquire agora um valor mais simbólico, passando do seu apartamento – caixão para as ruas de Nova York. Associada à imagem da cidade e das ruas está o sentimento de alienação (exteriorizando o “eu”) junto com o contraste – deserto.

A experiência da Caverna

Central Park constitui um refúgio onde Fogg consegue ter alguma privacidade, articulando melhor os seus pensamentos. Ao afastar-se da sociedade Fogg sente que não é necessário justificar os seus motivos confinando um sentimento de liberdade. Esta primeira versão da caverna não é, contudo a primeira imagem de caverna em “Moon Palace”: Marco Fogg parece habitar numa espécie de caverna platónica desde criança, onde vivendo com na ignorância da sua verdadeira identidade, inventa mundos próprios aparentemente perfeitos para não só fugir da realidade, como também com o objectivo de transcender o mundo. A caverna em Central Park é uma prova que Fogg se submete para testar os seus limites. Ao cair nos espaços em branco por preencher, Fogg dá uso à palavra através de monólogos/ solilóquios; ao falar em voz alta frases mais ou menos consequentes, Marco Fogg conquista o seu espírito e apresenta uma demanda não de identidade (neste caso específico), mas da palavra. Central Park pode ser visto como um oásis dentro da cidade actuando como espaço de transição entre o estado psicológico de estar vivo e morto. A caverna funciona como uma última morada para Fogg em conciliação com o quarto-caixão funcionando igualmente como uma espécie de túmulo. Mencionamos anteriormente a comparação entre a caverna de Fogg e a caverna de Platão 1 o sol actua como a única salvação do protagonista e a lua encarna o poder divino dos dois “o”s associados aos olhos de Deus.
Existem também alusões Bíblicas ligadas à experiência de Fogg na caverna, nomeadamente o episódio bíblico de Jonas. A baleia (tal como a caverna) não funciona como agente destruidor, mas sim de salvação. Tal como Fogg, também Jonas é salvo pela misericórdia de Deus.
A experiência solitária de Marco Fogg não deve ser tida em conta somente como negativa, por vezes este corte total com o mundo é necessário para se ter uma maior noção da realidade. Através do salvamento de Fogg por obra do acaso através de Zimmer e Kitty, Marco Fogg termina a sua descida aos Infernos, conclui também o seu tempo de hibernação. Após ser salvo, Fogg terá de recuperar a noção do espaço/ tempo que perdeu ao despojar-se de tudo e reduzir-se aos delírios e alucinações. Quando Fogg tem de visitar o psicólogo do exército para se alistar sabemos os motivos pelos quais Fogg aguentou a experiência nihilista. Marco Fogg estaria muito provavelmente à procura de algo positivo no mundo, algo que o possibilitasse de transcender. A casa de Thomas Effing será o espaço onde Fogg conseguirá preencher os espaços em branco (através da escrita do obituário). A relação entre Fogg e Effing é constituída através de palavras e silêncios. Fogg sente-se atraído pela figura misteriosa de Effing, no entanto não consegue penetrar na mente (caverna inacessível) de Thomas Effing.

O obituário segundo Thomas Effing

O processo da segunda educação segundo Effing inicia com um período de leitura de livros onde o tema é sempre a viagem – quer seja física, mental, real ou imaginária – seguido de um passeio exterior onde Fogg será os olhos de Effing ao descrever o mundo e as coisas. (citação) Fogg terá de aprender a ver para além das aparências. Ao mandar Fogg observar o quadro de Blakelock “Moonlight, Fogg sai do museu exausto. Segundo Platão a ascensão para a iluminação é algo de penoso. Fogg tem por fim a possibilidade de conseguir transcender a realidade.
Um dos episódios mais marcantes de “Moon Palace” é o processo de escrita do obituário de Thomas Effing. Dá-se inicio a uma série de histórias, declarando uma lição e prova de vida incitando Fogg a escrever igualmente a sua. Apesar das histórias terem um raciocínio e a narrativa estar dependente de avanços e recuos (analepses e prólepses) a verdade histórica está sujeita a interpretações ou até mesmo dúvidas. Sabemos que Thomas Effing (dado que o verdadeiro nome será Julian Barber, mantenhamos por enquanto o nome “actual”) era pintor, que abandonou a sua família para dar inicio a uma viagem acompanhado de outros dois viajantes. Após um companheiro ter perdido a vida (sendo que o outro companheiro desertou) Julian Barber sozinho encontra uma caverna, pertencente a um eremita morto (assassinado pelos irmãos x) e absorve a sua identidade (e mantêm o nome do eremita). Embora a caverna para Fogg tenha sido um sítio de devaneios e alucinações, o deserto para Effing constitui um lugar de revelações e aprendizagem.A viagem que Effing efectua é derivada por uma demanda do vazio, pelo nada sem Deus, onde há uma estética do vazio (deserto). A caverna do Eremita é igualmente um lugar de morte e de substituição de identidade. Thomas Effing serve-se da arte (pintura/ escrita) como uma força libertadora/ criadora e energética. Existe uma correspondência entre a escrita/ pintura; palavra/ imagem onde Thomas Effing dá rédea solta à sua criatividade.
Tal como o uncle Victor deixou a Fogg como testamento a história da América, o deserto é o legado que Effing transmite ao seu neto para lhe transmitir a sua visão, de modo que este aprenda a “ver”. Ao passar pela caverna Effing guia-nos até um espaço a explorar, até ao mito das origens. Effing usa a pintura para ultrapassar os obstáculos: ele sabe que o seu fim está a chegar, contudo também sabe que está isolado e protegido de olhares. Através da arte e do seu poder de observação Effing consegue penetrar no mundo, tenta conhecer-se a si próprio e tenta como o seu neto transcender o limite. A imaginação de Effing é algo inesgotável. A solidão do deserto é, para Effing algo de positivo.
Há um paralelismo entre a história de Effing e Fogg:
 O deserto real ou metafórico do avô e a experiência de Central Park do neto;
 Tal como o avô fica enclausurado na imensidão dos desfiladeiros, o neto sente-se enclausurado nos arranha-céus de Nova York.
 Fogg quando sai da caverna, não evolui; por outro lado Effing consegue romper com a sua vida e identidade antiga.
 Effing apresenta uma ruptura; Fogg continua o seu percurso descontínuo
 Effing resume-se à aparência enquanto Fogg é a essência
O obituário de Effing acaba por apresentar um mundo caótico onde as palavras limitam a realidade. Quando Fogg decide levar a história de Effing à realidade, acabando por não encontrar a caverna (que entretanto ficou submersa) tranformando-se num mito semelhante ao da Atlantida. Sendo assim a ficção sobrepõe a realidade.
A imagem da caverna une as três gerações: Julian Barber/ Solomon Barber/ Marco Fogg; enquanto a caverna é um testamento e um código genético.

A lua em “Moon Palace”


A lua é um dos símbolos – em conjunto com a caverna – que aparecem frequentemente em “Moon Palace”. Desde a referência inicial ao restaurante chinês na qual os olhos de Deus são comparados ao néon, até à lua no quadro de Blakelock “Moonlight”, que se assemelha a um buraco ou ao próprio olhar de Blakelock.
A lua acompanha Marco Fogg em conjunto com as outras personagens, acompanhando as mortes e os renascimentos e até a própria América. “Moon Palace” inicia a história com a chegada do homem à lua e termina com Marco Fogg a olhar para a mesma. Na figura da lua existe um quê de viagem cósmica, algo mágico e feminino. Existe um mundo sujeito a exploração que remonta não só ao início da América, mas também aos anos 60. O próprio quadro de Blakelock apresenta uma influência romântica.
Tanto a presença como a ausência da lua tem uma influência sob Fogg provocando a desintegração mental. Também a própria cabeça de Solomon Barber faz lembrar a lua, incorporando a lua em si próprio. A lua poderá ter três possíveis significados:
 Circularidade;
 Criação artística;
 Momentos de (não) utopia
Se pensarmos não só na circularidade mas também na ciclicidade, vemos as três gerações com o seu padrão de parentalidade: paternidade recusadas.
A lua:
 Representa a morte/ vida/ renascimento;
 Influência não só a arte, como a escrita, inspirando as personagens a transcender.
 É parecida com a terra, existindo vários desertos;
 Alia-se à lua de Julio Verne onde se transmite a ideia de que a lua é a ultima fronteira a expandir e ultrapassar;
 Possibilidade de realização da utopia extrema;
A ciclicidade das gerações acaba com Fogg a ser o único a atingir o Pacífico: Thomas Effing não vai para além do deserto; Solomon Barber acompanha o seu filho na reconstrução da viagem mítica de seu pai acabando por ser metaforicamente enterrado pelo seu filho. Marco Fogg é o único que não desiste e vais mais longe.
A ideia de fronteira constitui uma distopia; a última fronteira a ultrapassar já fora explorada. Há agora uma banalização do sonho americano – através da figura do Tenente Neil Armstrong – que é um simples anunciador do fim da utopia americana. Se analisarmos profundamente as próprias palavras “Moon Palace” representam algo de utópico, algo que invoque o mito americano. Os olhos de Deus no néon velam, por assim dizer, o sonho perdido da América.O deserto nunca pode ser uma marca de utopia.
Em tom de conclusão a lua procura envolver o romance em algo harmonioso, mostrando as diferentes faces de “Moon Palace” e Paul Auster.
Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s